Em Florianópolis, numa quinta-feira ao meio-dia, antigos adversários dividiram a mesa, cruzaram talheres e, na sequência, apresentaram-se juntos à imprensa. A cena, por si só, carrega simbolismo: lideranças que por décadas ocuparam campos opostos agora ensaiam uma convergência que, ao menos por ora, soa mais protocolar do que propriamente orgânica.
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Estavam ali nomes de peso do PSD, como João Rodrigues, Raimundo Colombo e Júlio Garcia, ao lado de Esperidião Amin, figura central do Progressistas, todos oriundos de um mesmo espectro histórico. Mas também compunham o quadro Carlos Chiodini e Eduardo Pinho Moreira, do MDB — adversários tradicionais de Amin — além de Fábio Schiochet, ainda em afirmação no União Brasil, e Gean Loureiro, de trajetória partidária múltipla e igualmente marcada por antagonismos com vários dos presentes.
O que se anunciou foi uma parceria. O que se viu, na prática, foi um arranjo ainda em construção — e cercado de incertezas.
Convenções
Não há como tratar essa aliança como consolidada. O calendário eleitoral impõe um filtro decisivo: as convenções partidárias, entre a segunda quinzena de julho e 5 de agosto. Até lá, qualquer composição é, no máximo, uma intenção.
A pergunta central permanece: haverá musculatura política suficiente para homologar, dentro de cada partido, uma coligação liderada por João Rodrigues? Hoje, não há garantia.
Base dividida
O principal obstáculo não está no discurso das cúpulas, mas na realidade das bases. No Progressistas, a sinalização foi inequívoca. Em reunião com o governador Jorginho Mello, na noite anterior, compareceram dois dos três deputados estaduais — José Milton Scheffer e Pepê Collaço — além de 41 dos 52 prefeitos do partido. Soma-se a isso o peso de lideranças como Silvio Dreveck, Leodegar Tiscoski e Aldo Rosa. O recado é claro: a maioria está alinhada ao projeto governista.
No MDB, o quadro é semelhante. Metade da bancada estadual — Antídio Lunelli, Jerry Comper e Fernando Krelling — já orbita em torno de Jorginho Mello. Lunelli, inclusive, foi convidado para a primeira suplência ao Senado. Os suplentes Emerson Stein e Cleiton Fossá também caminham nessa direção.
Do outro lado, Mauro De Nadal se posiciona com João Rodrigues. Volnei Weber se afasta da vida pública. Tiago Zilli dá sinais de aproximação com o governo. Na bancada federal, a fragmentação se repete: Valdir Cobalchini, Ivete Appel da Silveira, Carlos Chiodini e Rafael Pezenti seguem trajetórias distintas, sem alinhamento uniforme.
Federação
Há ainda um elemento novo e decisivo: a criação da Federação União Progressista, formalizada pelo TSE. Na prática, deixam de existir PP e União Brasil como estruturas isoladas. A convenção passa a ser conjunta. Isso altera profundamente o jogo interno.
Mesmo que Amin e Schiochet consigam maioria na convenção federativa, o resultado não significa controle absoluto. Levariam CNPJ e tempo de televisão, é verdade, mas não necessariamente a totalidade da estrutura política. Parte relevante da federação seguirá com Jorginho Mello.
Protocolo
O encontro desta semana, portanto, deve ser interpretado com cautela. Trata-se, essencialmente, de um protocolo de intenções. Há disposição para caminhar juntos, percorrer o Estado, construir narrativa e tentar viabilizar uma alternativa. Mas falta densidade política, capilaridade nas bases e, sobretudo, segurança quanto à fidelidade interna das siglas envolvidas.
Realidade
A rigor, o que se tem hoje é uma aliança de cúpula diante de bases divididas. Até as convenções, haverá movimento, articulação e tentativa de consolidação. Mas sem qualquer garantia de desfecho favorável.
No fim das contas, a política — como sempre — será definida não pelas fotos de ocasião, mas pelos votos internos de cada partido. E isso, neste momento, está longe de ser previsível.
O secretário da Infraestrutura e Mobilidade, Jerry Comper, reagiu publicamente ao anúncio do presidente estadual do MDB, Carlos Chiodini, de que o partido estará com João Rodrigues nas eleições deste ano.
Comper é secretário do atual governo há mais de três anos e listou os outros espaços importantes ocupados pelo partido na administração estadual.
Mas, o que mais chamou a atenção na manifestação de Comper, que é deputado estadual licenciado, foi o fato de ter sido pego de surpresa com o cancelamento, unilateral, de dois eventos do partido marcados para esta sexta-feira em sua base política.
Sinal inequívoco de Carlos Chiodini pode estar caminhando para o isolamento a partir do açodado anúncio de parceria com o prefeito de Chapecó. Rebelião à vista!
Blog do Prisco
Começou no jornalismo em 1980, no jornal O Estado. Atuou em diversos veículos de comunicação: repórter no Jornal de Santa Catarina, colunista no Jornal A Notícia e comentarista na RBS TV, TV RECORD, Itapema FM, CBN Diário e Radio Eldorado. Comenta diariamente em algumas rádios e publica sua coluna do dia em alguns jornais do Estado. Estreou em março de 2015, nas redes sociais e está no ar com o Blog do Prisco.