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Um recesso longo demais

Por Cláudio Prisco Paraíso
20/01/2026 - 09h38

Raras vezes, nas últimas décadas, o Brasil precisou tanto que o recesso de janeiro passasse com a urgência que este início de 2026 exige. Não se trata apenas de calendário institucional, mas de responsabilidade democrática. O país entrou no ano com instituições tensionadas, investigações sensíveis represadas e um desequilíbrio cada vez mais evidente entre os Poderes.

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Quando se fala em recesso, a referência central não é o Judiciário — que, bem ou mal, segue operando —, mas o Legislativo. Câmara e Senado precisam voltar a funcionar em plenitude. O silêncio do Congresso, neste momento, custa caro à democracia.

Recesso

O Supremo Tribunal Federal não está parado. Atua, ainda que parcialmente, com decisões e despachos concentrados nas mãos de dois ministros: Alexandre de Moraes e Dias Toffoli. O problema não é a atividade, mas a forma, o alcance e, sobretudo, a ausência de contrapesos institucionais.

Já o Legislativo vive um vazio absoluto. Congresso em recesso, Senado em recesso, Câmara em recesso. Moscas. E o calendário joga contra: quando os parlamentares retornarem, terão poucos dias úteis antes do Carnaval. A oposição, se quiser cumprir seu papel, terá de chegar articulada, preparada e disposta a agir com rapidez.

Master

Basta observar um único caso para entender a gravidade do momento: o episódio envolvendo o Banco Master. O processo foi puxado para o Supremo por decisão do próprio ministro Dias Toffoli, sob a alegação da existência de um deputado federal ligado a um empreendimento imobiliário com o dono do banco — negócio que sequer se concretizou.

Temor do quê?

Ainda assim, o caso foi retirado da primeira ou segunda instância, colocado sob sigilo máximo e passou a sofrer uma série de intervenções que dificultam, quando não inviabilizam, a atuação da Procuradoria-Geral da República, do Ministério Público e da Polícia Federal. Prazos foram impostos, perícias delimitadas, peritos escolhidos. Um roteiro que soa menos como cautela jurídica e mais como controle do processo.

Conduta

O comportamento é, no mínimo, questionável. Para não dizer algo mais grave. Trata-se de uma atuação que qualquer estudante de Direito teria dificuldade em justificar do ponto de vista técnico. Há fatos que agravam o cenário. O ministro assumiu a causa durante uma viagem ao Peru, para a final da Libertadores, acompanhado por advogados ligados ao caso.

Defesa

A partir daí, uma sequência de decisões passou a produzir um efeito claro: procrastinar, atrasar e blindar. Quando um magistrado interfere para impedir o avanço de investigações, isso recebe um nome no Código Penal. E não é leve. A ironia é que práticas semelhantes já renderam prisões decretadas pelo próprio Supremo em outros casos.

Passado

Não se trata de um episódio isolado. Em 2019, Dias Toffoli, então presidente do STF, criou por ofício o chamado inquérito das fake news — um procedimento sem base legal clara, que segue ativo até hoje.

O pano de fundo era incômodo: auditores da Receita Federal investigavam um descompasso entre o patrimônio de ministros do Supremo e suas remunerações. Toffoli e Gilmar Mendes estavam no centro dessas apurações. A resposta veio com a abertura do inquérito e a escolha direta, sem sorteio, de Alexandre de Moraes como relator.

Espelho

Agora, o roteiro se repete. Alexandre de Moraes abre novo inquérito, também por ofício, para investigar vazamentos da Receita Federal e do COAF que atingem… Alexandre de Moraes e Dias Toffoli.

Quando os vazamentos serviam para incriminar adversários políticos ou investigados do 8 de janeiro, eram tolerados. Quando alcançam ministros do Supremo, tornam-se criminosos intoleráveis. Dois pesos, duas medidas. E o mais grave: investigações abertas em causa própria, com o objetivo evidente de bloquear apurações incômodas.

Entre a dissimulação e o isolamento

Por Cláudio Prisco Paraíso
17/01/2026 - 08h13

Nos bastidores da política catarinense, cresce a percepção de que o prefeito de Chapecó, João Rodrigues (PSD), pode estar falando sozinho quando o assunto é sua pré-candidatura ao Governo do Estado.

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A cada movimento, o discurso público parece destoar do ambiente interno do partido e até mesmo da realidade administrativa que o cerca. O que deveria ser uma construção sólida soa, cada vez mais, como um projeto solitário — ou, no mínimo, mal combinado.

Crença isolada

Hoje, ao que tudo indica, apenas o próprio João Rodrigues — e, talvez, ele mesmo — acredita de forma efetiva na viabilidade de sua pré-candidatura ao Governo do Estado em 2026. Informações que chegam de Chapecó indicam que nem auxiliares diretos e integrantes do colegiado municipal enxergam um cenário concreto de renúncia ao cargo de prefeito para disputar o Executivo estadual.

Ocupando espaço

A leitura predominante é de que toda essa movimentação tem outro objetivo: ocupar espaço político, manter-se no noticiário e, quem sabe, pavimentar uma tentativa futura de protagonismo majoritário, possivelmente em 2030. Não seria a primeira vez. Em 2022, João Rodrigues já ensaiou um voo mais alto, articulando uma chapa que envolvia o então prefeito de Criciúma, Clésio Salvaro, como vice, e o empresário Luciano Hang para o Senado. A estratégia não prosperou e deixou mais desgaste do que dividendos.

O risco da renúncia

Há um detalhe que pesa — e muito — nessa equação. Uma eventual renúncia em 2026 deixaria João Rodrigues politicamente exposto por pelo menos dois anos. O paralelo com Gean Loureiro, que deixou a Prefeitura de Florianópolis e passou quatro anos no chamado “Sereno” político, é inevitável. A diferença é que Loureiro agora tenta uma vaga na Assembleia. No caso de João Rodrigues, o risco é ainda maior.

Ataque que confunde

Nos últimos dias, o prefeito surpreendeu ao desferir duras críticas ao governador Jorginho Mello, em entrevista a uma emissora de rádio. A estratégia é, no mínimo, difícil de compreender. Se a intenção for permanecer à frente da Prefeitura de Chapecó, romper pontes com o Governo do Estado não parece racional. Recursos estaduais são vitais para qualquer grande município — ainda mais quando, no plano federal, João Rodrigues já não conta com respaldo. A bancada petista, especialmente no Oeste, mantém distância declarada.

O jogo real do PSD

Enquanto João Rodrigues protagoniza movimentos erráticos, Júlio Garcia atua com precisão cirúrgica. O presidente da Alesc trabalha para consolidar sua candidatura à Câmara Federal, e os sinais internos do PSD apontam claramente para uma estratégia focada na chapa proporcional.

Salvaro muda o eixo

Nesse contexto, a decisão de Clésio Salvaro de disputar uma vaga na Assembleia Legislativa muda completamente o tabuleiro. Salvaro era o único nome com densidade eleitoral para compor uma chapa majoritária com João Rodrigues, seja como vice ou até para o Senado. Agora, sua candidatura estadual tem um objetivo claro: formar dobradinha e impulsionar Júlio Garcia rumo à Câmara Federal.

Prestígio que puxa votos

O capital eleitoral de Salvaro é inegável: quatro vezes prefeito de Criciúma, três mandatos concluídos, duas eleições com mais de 70% dos votos. Trata-se de um clássico puxador de votos, peça-chave para o projeto proporcional do PSD.

Projeto proporcional

Com Ismael dos Santos bem posicionado para a reeleição à Câmara, o PSD trabalha com a perspectiva de eleger dois ou até três deputados federais, além de ampliar a bancada estadual de três para, pelo menos, cinco parlamentares. Tudo isso indica uma estratégia clara: fortalecer o partido no Legislativo, e não apostar fichas altas em uma aventura majoritária.

E a majoritária?

Até se poderia imaginar uma composição com o governador Jorginho Mello, mas com quem? Nomes como o prefeito Topázio Neto, um quadro técnico ligado a Júlio Garcia — como o secretário da Fazenda, Cleverson Siewert — ou até o ex-deputado e atual desembargador João Henrique Blasi surgem como hipóteses muito mais alinhadas ao centro de gravidade do PSD hoje.

Fritura silenciosa

A pergunta que fica nos bastidores é direta: João Rodrigues está sendo “fritado” em fogo baixo, à luz do dia? E mais: ele percebe isso? No PSD catarinense, uma coisa é cristalina — quem dá as cartas é Júlio Garcia. E, diante desse jogo de forças, João Rodrigues parece, a cada semana, perder espaço, força e centralidade.

O roteiro segue em aberto. Mas os sinais, para quem sabe ler política, são cada vez menos sutis.

Cláudio Prisco Paraíso

Blog do Prisco

Começou no jornalismo em 1980, no jornal O Estado. Atuou em diversos veículos de comunicação: repórter no Jornal de Santa Catarina, colunista no Jornal A Notícia e comentarista na RBS TV, TV RECORD, Itapema FM, CBN Diário e Radio Eldorado. Comenta diariamente em algumas rádios e publica sua coluna do dia em alguns jornais do Estado. Estreou em março de 2015, nas redes sociais e está no ar com o Blog do Prisco.

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