Há, Brasil afora, uma quantidade expressiva de lideranças políticas e partidárias — inclusive em Santa Catarina — acreditando em formulações eleitorais que não resistem ao mais elementar teste da realidade. São teses, nomes e articulações que não convencem sequer a proverbial “velhinha de Taubaté”. Trata-se, em muitos casos, de pura narrativa para consumo interno, sem qualquer lastro eleitoral concreto.
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No debate sobre a sucessão presidencial, essa desconexão com os fatos salta aos olhos. Especulam-se muitas candidaturas, especialmente no campo da direita, mas o quadro real, objetivo e verificável aponta para um cenário muito mais restrito. No fim do dia, o Brasil caminha para uma disputa com apenas três alternativas efetivas — e talvez apenas duas.
O campo da esquerda
À esquerda, não há mistério. O presidente Lula da Silva é o candidato natural à reeleição. Terá, como sempre, uma ampla frente de apoio que vai do PDT ao PSB, passando por Rede, PCdoB, PSOL, PV e congêneres. Os partidos de extrema esquerda — como PSTU e PCO — seguem no papel que sempre desempenharam: irrelevantes do ponto de vista eleitoral.
Eventuais candidaturas “exóticas”, como a do ex-deputado Aldo Rebelo, cumprem apenas função figurativa. Participam do processo, mas não interferem no resultado.
O campo da direita
Do outro lado do espectro, o discurso é muito mais barulhento do que consistente. Jair Bolsonaro já fez sua escolha: indicou o filho, senador Flávio Bolsonaro, como herdeiro político. E chama atenção o fato de, em pleno ano eleitoral, Flávio reservar semanas para viagens ao exterior, enquanto, simultaneamente, Bolsonaro articula um encontro com o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas.
Nada disso é aleatório. A pergunta central é simples: quem, de fato, tem densidade eleitoral para enfrentar Lula?
Os “governadores candidatos”
Romeu Zema é um excelente nome — para compor uma chapa, eventualmente como vice. Ronaldo Caiado e Ratinho Júnior, governadores reeleitos de Goiás e do Paraná, respectivamente, já têm destino praticamente selado: disputarão o Senado. Chance real de candidatura presidencial? Zero.
Podem até se apresentar como pré-candidatos. Podem, em tese, renunciar aos cargos até o prazo legal de abril. Mas ninguém os leva a sério como postulantes ao Planalto. Caiado ensaia esse discurso desde o ano passado. Ratinho Júnior entrou agora com mais ênfase, condicionando sua candidatura ao apoio do PSD.
O PSD e o limite da retórica
A conta não fecha. Em estados-chave do Norte e do Nordeste — a Bahia é apenas um exemplo — o PSD já está no projeto de reeleição de Lula. A ideia de que Gilberto Kassab asseguraria apoio “do Centro-Oeste para baixo” ignora a realidade interna do partido.
Kassab, hoje, depende diretamente de Tarcísio de Freitas. Seu poder nacional passa, necessariamente, pelo governo de São Paulo. A hipótese de ele se lançar candidato ao governo paulista se Tarcísio for à Presidência é risível: nas pesquisas, aparece com cerca de 1%. No máximo, garantiria uma deputação federal. Não há, portanto, como o PSD sustentar uma candidatura presidencial de Ratinho Júnior.
O jogo real
Reduzido o ruído, o cenário fica cristalino. Contra Lula, restam duas possibilidades reais: Flávio Bolsonaro, se a opção for manter a polarização personalista, lulismo versus bolsonarismo; Tarcísio de Freitas, se Bolsonaro decidir migrar para uma disputa mais institucionalizada, de centro-direita contra centro-esquerda. É simples assim. Fora disso, é fantasia.
O ponto de inflexão
Aqui está o eixo da questão. Se Bolsonaro confirmar Tarcísio como candidato à Presidência — tendo Michelle Bolsonaro, Flávio ou mesmo Zema como vice — a pressão sobre Lula será enorme. Especialmente considerando que 56% dos brasileiros afirmam que ele não deveria concorrer e que o governo enfrenta reprovação de cerca de metade da população.
Nesse cenário, não será trivial para Lula “segurar o rojão” e confirmar sua candidatura. Até lá, o resto é espuma retórica. O jogo real está posto. Agora, é observar o desenrolar dos acontecimentos.
A cena política de Santa Catarina expõe, com crueza, a profunda desarticulação dos partidos de esquerda no Estado. Não se trata apenas de uma percepção externa ou de crítica adversária: os próprios atores desse campo ideológico reconhecem, ainda que nos bastidores, a sua fragilidade eleitoral e a dificuldade real de construir uma alternativa competitiva para a eleição majoritária de outubro.
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O problema não é episódico, nem circunstancial. É estrutural. Falta base, faltam quadros, falta densidade eleitoral e, sobretudo, falta projeto com aderência ao eleitor catarinense.
Um campo fragmentado e sem nomes
Quando se observa o conjunto dos partidos tradicionalmente identificados com a esquerda — PSOL, PDT, Rede, PCdoB, PV e PSB — a pergunta é direta e constrangedora: que nomes, com origem ideológica clara à esquerda, esses partidos dispõem hoje para encabeçar uma chapa majoritária ao governo do Estado?
A resposta, objetiva e incômoda, é nenhuma. Não há liderança com estatura estadual, capilaridade política e musculatura eleitoral para sustentar uma candidatura competitiva.
O PT e o esgotamento de alternativas
No caso do PT, principal força desse espectro ideológico, o cenário não é diferente. As opções são escassas e repetidas. Décio Lima surge, mais uma vez, como nome natural — já candidato nas duas últimas eleições ao governo e atualmente presidente nacional do Sebrae, cargo de enorme relevância administrativa e orçamentária, comparável, em volume de recursos, a vários ministérios. Sua proximidade pessoal e política com o presidente Lula é um ativo evidente.
Fora Décio, porém, o partido carece de alternativas com peso real. Entre os deputados federais, Ana Paula Lima não se apresenta como opção natural para uma cabeça de chapa. Pedro Uczai, apesar da longevidade parlamentar, nunca conseguiu ultrapassar os limites de um eleitorado restrito e regionalizado.
No âmbito estadual, a bancada é diminuta e sem nomes com projeção majoritária. O resultado dessa fragilidade ficou evidente nas eleições municipais de 2024: em 295 municípios catarinenses, nenhum partido de esquerda conseguiu eleger sequer um prefeito. Nem o PT.
A busca por conservadores
É nesse contexto que se explica o movimento, quase desesperado, de setores da esquerda em direção a nomes de perfil claramente conservador, na tentativa de viabilizar uma candidatura que, formalmente, represente esse campo político.
O PSB, partido do vice-presidente Geraldo Alckmin — um socialista apenas no rótulo, com longa trajetória tucana e conservadora — liderou as primeiras investidas. Raimundo Colombo foi o primeiro alvo. Recusou.
Na sequência, tentou-se Paulo Bauer. Também não houve adesão. Agora, o nome da vez é Gelson Merisio, atualmente filiado ao Solidariedade e que coordenou a campanha de Décio Lima em 2022. Merisio já declinou de compor a chapa como vice; ao Senado, o nome foi Dário Berger.
Um tripé conservador e derrotado
O dado mais revelador está no histórico desses nomes. Raimundo Colombo construiu sua carreira no PDS, PFL, Democratas e hoje está no PSD. Paulo Bauer passou pelo PDS, que presidiu no Estado, e foi uma das principais lideranças do PSDB. Gelson Merisio fez trajetória abrigado no PFL, DEM e PSD.
Trata-se, portanto, de um tripé de perfil conservador, deslocado ideologicamente do discurso que se pretende sustentar. E mais: todos foram derrotados nas últimas eleições que disputaram.
Colombo perdeu eleições ao Senado em 2018 e 2022. Em 2018, dividiu a derrota com Paulo Bauer. Gelson Merisio, candidato ao governo no mesmo ano, chegou ao segundo turno, mas foi atropelado pela onda bolsonarista que levou Carlos Moisés ao poder.
Incongruência e esgotamento
A incongruência é evidente. A esquerda catarinense tenta convencer o eleitor de que nomes oriundos da direita e do centro poderiam, subitamente, encarnar um projeto progressista. Ao mesmo tempo, recorre a lideranças já derrotadas, sem fôlego eleitoral recente e sem capacidade de renovação simbólica.
Esse movimento não revela astúcia política, mas sim esgotamento. É o retrato de um campo político que perdeu base social, quadros competitivos e conexão com o eleitorado. Essa é, hoje, a realidade nua e crua da esquerda em Santa Catarina.
Blog do Prisco
Começou no jornalismo em 1980, no jornal O Estado. Atuou em diversos veículos de comunicação: repórter no Jornal de Santa Catarina, colunista no Jornal A Notícia e comentarista na RBS TV, TV RECORD, Itapema FM, CBN Diário e Radio Eldorado. Comenta diariamente em algumas rádios e publica sua coluna do dia em alguns jornais do Estado. Estreou em março de 2015, nas redes sociais e está no ar com o Blog do Prisco.