O anúncio de que o Progressistas, o MDB e o União Brasil estarão no campo de apoio ao pré-candidato ao Governo de Santa Catarina, João Rodrigues, provoca uma reflexão importante — e necessária — para quem acompanha a política catarinense.
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É claro que, do ponto de vista eleitoral, alianças fazem parte do jogo. João Rodrigues, como qualquer outro pré-candidato precisa reunir forças para tentar chegar com viabilidade à disputa.
Mas o que chama atenção é justamente quem está se sentando à mesma mesa. O antigo PMDB, hoje MDB e o antigo PDS, que depois virou PP e atualmente é chamado de Progressistas carregam uma longa história de rivalidade política em nosso Estado.
Durante décadas, estiveram em lados opostos em inúmeras disputas municipais — ainda estão — e estaduais. São partidos que se opõe a ideologias, mas, agora aparecem no mesmo lado.
Ainda que não exista consenso interno — e isso precisa ser dito — já que nem todo MDB nem todo Progressistas estará com João Rodrigues, porque parte importante dessas siglas também mantém proximidade com o governador Jorginho Mello, a fotografia política que se desenha é intrigante.
Ela mostra, mais uma vez, que na política brasileira, e também em Santa Catarina, os partidos muitas vezes deixam de lado qualquer coerência ideológica quando entram em cena os projetos pessoais.
Muitas vezes o eleitor até “fecha o pau” para defender bandeira que, na prática, os próprios líderes partidários abandonam assim que surge uma composição conveniente.
Enquanto o eleitor briga nas redes sociais, rompe amizade, discute em grupo de WhatsApp e trata política como se fosse futebol, muitos políticos sentam à mesa, brindam e reorganizam seus interesses conforme a conveniência do momento.
Como fica aquele cidadão que passou anos ouvindo que o adversário era “o problema”, “o atraso”, “o outro lado”?
Como fica o correligionário que vestiu a camisa e entrou em embate para defender seu grupo político?
É justamente por isso que o eleitor precisa, cada vez mais, entender melhor como funciona a política brasileira. Porque, salvo raras exceções, boa parte das siglas hoje se movimenta muito mais por conveniência do que por convicção.
Fico cada vez mais com a impressão de que quem pensa apenas em projeto pessoal, está cada vez mais longe de merecer a confiança do eleitor.
O que podemos esperar da delação premiada do ex-banqueiro Daniel Vorcaro? Afinal ele é um homem-bomba. Sabe demais. Se relacionou com muita gente, circulou entre poderosos, fez fortuna e virou bilionário.
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E não é qualquer bilionário — é daquele tipo extravagante: casa de 84 milhões de dólares na Flórida, casarão de 260 milhões no Brasil, no litoral da Bahia, apartamento para namorada, agrados aqui e ali… um padrão de vida que não passa despercebido — nem deveria.
Mas o ponto não é o luxo. Nunca foi. O que chama atenção é o rastro. O cunhado dele despejou muito dinheiro em campanhas políticas. E aí vem a pergunta que ninguém responde: qual era o interesse por trás disso? Porque esse tipo de investimento, a gente sabe, não é por acaso — nem por altruísmo.
E tem mais. As conexões com o Banco Central. Por que tantos encontros naquele momento? Que tipo de alerta foi feito? E, principalmente, o que foi ignorado? Porque, até pouco tempo atrás, o Banco Central era tratado como uma espécie de “Vaticano da moeda” — intocável, imune, acima de qualquer suspeita. Só que os fatos começam a arranhar essa imagem. E não é pouco.
A delação desse personagem não preocupa à toa. Ela mexe com muita gente — e com estruturas de poder. A questão agora é outra: como isso tudo vai ser conduzido? Polícia Federal e PGR estão no jogo, certo. Mas e o STF? Qual será o papel, considerando que também pode acabar atingido?
É aí que mora o risco. A sociedade precisa de respostas claras — e não de bastidores. Precisa ter certeza de que não vai existir “acordão” para blindar ninguém. Porque, em pleno período pré-eleitoral, qualquer fala — ou silêncio — pode desequilibrar o jogo.
E quando o assunto é poder, dinheiro e influência, silêncio demais nunca é um bom sinal. Transparência, aqui, não é luxo — é obrigação. Porque toda vez que o sigilo aparece em excesso, cresce junto a sensação de que tem coisa sendo combinada longe dos olhos de quem deveria, de fato, estar no controle: a sociedade.
Blog do Bordignon
Em 2004, colou grau em jornalismo pela Universidade do Sul de Santa Catarina. É editor da edição impressa da Revista Única e, dos portais, www.lerunica.com.br e www.portal49.com.br.