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Sem o 15

Por Cláudio Prisco Paraíso
05/06/2026 - 08h49

A situação do MDB catarinense chega a um momento histórico, delicado e até simbólico. Justamente no ano em que o partido celebra seis décadas de existência em Santa Catarina, cresce internamente a possibilidade concreta de que, pela primeira vez desde a redemocratização e a retomada das eleições diretas em 1982, o velho Manda Brasa fique sem o número 15 na urna majoritária estadual.

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O debate deixou de ser apenas eleitoral. Passou a ser identitário.

Na última segunda-feira, durante sessão especial na Assembleia Legislativa em homenagem aos 60 anos da sigla, o MDB voltou a exibir aquilo que nenhum outro partido conseguiu construir em Santa Catarina: capilaridade, militância orgânica e presença efetiva nos 295 municípios.

Mesmo após perder, em 2024, a condição de partido com o maior número de prefeitos para o PL de Jorginho Mello, o MDB segue sendo a estrutura partidária mais enraizada do Estado.

Mas exatamente aí reside o drama da turma do Manda Brasa.

Preterido

Durante mais de três anos, os emedebistas permaneceram no governo estadual sob a expectativa de ocupar a vaga de vice na chapa de reeleição de Jorginho Mello. Inclusive ocupando cargos de primeiro escalão. Carlos Chiodini era tratado como nome natural para a composição.

Freio de arrumação

Só que, no início deste ano, o governador promoveu um verdadeiro cavalo de pau político. Aproximou-se do Novo e escolheu Adriano Silva, então prefeito de Joinville, como companheiro de chapa. O MDB ficou fora.

Com João

A reação foi inevitável. Ainda existe um grupo alinhado ao projeto de recondução de Jorginho, algo próximo de um terço das lideranças estaduais. Mas a ampla maioria passou a se deslocar para o projeto de João Rodrigues. E justamente levando Chiodini para ocupar, ao lado do prefeito de Chapecó, a mesma vaga que seria sua com Jorginho: a vice-governadoria.

Ausência

O problema é que vice não aparece na urna. E o MDB percebeu que pode chegar a 2026 sem um candidato próprio ao governo e, pior, sem candidato ao Senado. Ou seja, sem o 15 na urna.

Hoje, a composição desenhada ao lado de João Rodrigues contempla apenas um nome ao Senado: Esperidião Amin.

Ajuntamento

E aí surge outro componente histórico carregado de simbolismo. Durante quatro décadas, Amin foi o principal adversário político do MDB catarinense. Para uma geração inteira de emedebistas — especialmente os chamados “de cruz na testa” — o progressista sempre foi tratado como inimigo político preferencial.

Agora, parte do partido se vê diante da necessidade de pedir votos justamente para Amin. A política realmente não é para amadores.

Pressão

É nesse contexto que cresce a pressão sobre o deputado estadual Antídio Lunelli. Empresário bem-sucedido, ex-prefeito de Jaraguá do Sul por dois mandatos e responsável pela eleição do sucessor, Antídio mantém densidade eleitoral, capacidade financeira, recall político e carisma reconhecido até por adversários.

Opção rejeitada

Em 2022, apresentou-se como pré-candidato ao governo justamente para preservar o protagonismo do MDB. Acabou derrotado internamente na convenção partidária.

Agora, muitos emedebistas entendem que ele seria o único nome capaz de manter o 15 vivo na urna majoritária, disputando o Senado numa dobradinha com Esperidião Amin. Não apenas para preservar simbolicamente a presença do partido, mas também para tornar a chapa mais competitiva eleitoralmente.

Declínio

O MDB carrega outra preocupação silenciosa: o desgaste acumulado nas duas últimas eleições estaduais.

Em 2018, Mauro Mariani protagonizou o primeiro grande trauma da sigla ao não conseguir levar o partido ao segundo turno.

Gravidade

Em 2022, a situação se agravou. O MDB abriu mão da cabeça de chapa, indicou Udo Döhler como vice de Carlos Moisés e novamente ficou fora da disputa decisiva.

Ou seja: duas eleições consecutivas sem protagonismo efetivo. Para um partido que governou Santa Catarina durante décadas e construiu parte expressiva da história política do Estado, trata-se de uma mudança brutal de realidade.

Resistência

Antídio Lunelli resiste. Mas a pressão continua aumentando. Não apenas dentro do MDB, mas também entre setores do PSD e até do PP, que enxergam na presença de um candidato emedebista ao Senado uma maneira de ampliar a musculatura política da aliança.

Eleição decisiva

Porque, no fundo, o MDB sabe que 2026 pode representar muito mais do que uma simples eleição.

Pode marcar o momento em que o partido deixará oficialmente de ser protagonista para assumir, pela primeira vez desde 1982, um papel secundário na política catarinense.

Cláudio Prisco Paraíso

Blog do Prisco

Começou no jornalismo em 1980, no jornal O Estado. Atuou em diversos veículos de comunicação: repórter no Jornal de Santa Catarina, colunista no Jornal A Notícia e comentarista na RBS TV, TV RECORD, Itapema FM, CBN Diário e Radio Eldorado. Comenta diariamente em algumas rádios e publica sua coluna do dia em alguns jornais do Estado. Estreou em março de 2015, nas redes sociais e está no ar com o Blog do Prisco.

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