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O tabuleiro começou cedo

Por Cláudio Prisco Paraíso
28/01/2026 - 08h42

Jorginho Mello assumiu o governo do Estado em 1º de janeiro de 2023. Mal havia esquentado a cadeira e, já no segundo semestre daquele mesmo ano, o prefeito de Chapecó, João Rodrigues, começou a se insinuar como pré-candidato ao governo em 2026.

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Àquela altura, João Rodrigues havia sido sondado pelo então presidente Jair Bolsonaro, entre março e abril, para se filiar ao PL e disputar o Senado na chapa liderada por Jorginho Mello. Mas o prefeito acreditou que Jorginho iria trocar os pés pelas mãos e quem tinha reais condições de disputar — e vencer — o governo em 2026 seria ele próprio. Não foi o que se viu depois.

Patinando

Já no início de 2024, João Rodrigues passou a discursar claramente como pré-candidato. Em meio à campanha municipal, com a reeleição em Chapecó praticamente assegurada, percorreu diversos municípios do Estado pedindo votos para companheiros do PSD.

Desempenho

No chamado Grande Oeste — cerca de cem municípios, tendo Chapecó como principal polo — o resultado foi pífio para o partido. O PSD venceu apenas em Chapecó. Nos demais centros relevantes da região, como Xaxim, Xanxerê, Joaçaba, Concórdia, Caçador, São Miguel do Oeste e Campos Novos, não elegeu prefeitos.

Ainda assim, João Rodrigues seguiu se apresentando como o único adversário efetivo de Jorginho Mello. Mas a pré-candidatura não decolou. Faltou densidade política, alianças e respaldo estadual.

A esquerda sem rumo

Do outro lado do espectro, a esquerda demorou a se organizar. Décio Lima nunca confirmou uma terceira candidatura consecutiva ao governo, e nem o PT nem seus aliados dispunham de um nome competitivo até então.

Quem?

Somente a partir do segundo semestre de 2025 começou a circular, ainda timidamente, o nome de Adriano Silva.

Adriano entra no radar

Quando Adriano Silva apareceu em pesquisas com quase dois dígitos, acendeu-se o sinal amarelo. Prefeito reeleito de Joinville com quase 80% dos votos, no maior colégio eleitoral do Estado, Adriano carrega um histórico simbólico: Joinville já elegeu dois governadores — Pedro Ivo Campos e Luiz Henrique da Silveira, este último com dois mandatos. Hoje, inclusive, a viúva de Luiz Henrique (Ivete) ocupa uma cadeira no Senado, como suplente de Jorginho Mello. Havia, portanto, viabilidade política real.

O movimento do PSD

Foi nesse contexto que Jorge Bornhausen e Júlio Garcia concluíram que João Rodrigues não iria a lugar algum. A pré-candidatura estava patinando, sem musculatura para sair do chão. Era preciso buscar uma alternativa.

Aposta

O plano foi direto: convidar Adriano Silva para ser o candidato ao governo, com o apoio do PSD. A João Rodrigues, restariam duas opções — vice na chapa ou uma candidatura ao Senado.

Jorginho reage rápido

A movimentação foi explícita. O presidente da Assembleia Legislativa foi pessoalmente à casa do pai de Adriano Silva, em Joinville, para formalizar o convite. O gesto acelerou a reação do governo. Sem pestanejar, Jorginho Mello entrou em cena. O desfecho foi quase que imediato: Adriano Silva aceitou ser vice na chapa de Jorginho, já sinalizando que disputará o Senado em 2030. Na prática, Adriano assumiria o governo e se tornaria candidato natural à reeleição.

A escolha óbvia

Adriano avaliou o cenário e fez a conta política. Ser vice de um governador bem avaliado, administrativamente sólido, politicamente articulado, com apoio de Jair Bolsonaro e da maioria dos partidos de direita em Santa Catarina, oferecia perspectivas muito mais favoráveis do que liderar uma chapa isolada do PSD em 2026. Foi uma decisão pragmática — e previsível.

O isolamento de João Rodrigues

O movimento expôs um problema central: o PSD não enxerga envergadura política em João Rodrigues. E os próprios gestos do prefeito ajudaram a consolidar essa percepção. Quando o MDB estava fechado como vice de Jorginho, João atacou o partido. Agora, mesmo podendo ser aliado, descartou publicamente qualquer composição. Disse, sem rodeios, que quem votou em 80% das matérias do governo Lula (Carlos Chiodini) não entra na sua chapa — ignorando o fato de tratar-se do presidente estadual do MDB e vice-presidente nacional do partido. Fechou portas. Todas.

Voo de galinha

Agora, Adriano Silva também “não presta” aos olhos de João Rodrigues, apenas porque se alinhou com Jorginho. O discurso passou a ser de ataque permanente. O resultado é claro: trata-se de uma liderança que articula mal, constrói pouco e se isola rapidamente. Não apresenta tamanho para concorrer ao governo e nem conta com capacidade de costura para um voo mais audacioso.

No xadrez pré-eleitoral catarinense, enquanto alguns se movem com estratégia, outros seguem se comportando como uma espécie de biruta de aeroporto. Não bastasse isso, carece de embocadura intelectual e envergadura moral.

Decisões antecipadas mudam o jogo político em Santa Catarina

Por Cláudio Prisco Paraíso
27/01/2026 - 09h06

Tradicionalmente, a política brasileira — e a catarinense não foge à regra — acostumou-se a deixar as grandes definições para o limite do prazo legal. As convenções homologatórias, realizadas no início de agosto, sempre funcionaram como o palco das surpresas, das desistências e das costuras de última hora. Foi assim em 2018, repetiu-se em 2022 e consolidou-se como prática corrente.

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Desta vez, no entanto, o roteiro foi alterado. E quem rompeu com essa lógica foi justamente quem lidera o processo: o governador Jorginho Mello. Ao antecipar decisões estratégicas e definir sua chapa com antecedência incomum, ele não apenas reorganizou o tabuleiro eleitoral, como passou a conduzir — e não apenas reagir — o processo sucessório em Santa Catarina.

A mudança de postura não é detalhe. Ela redefine o ambiente político, expõe fragilidades dos adversários e força partidos historicamente protagonistas a decidir se acompanham o favorito ou se arriscam em projetos próprios de viabilidade duvidosa.

Lições de 2018: quando todos perderam

Basta lembrar o cenário de 2018. Paulo Bauer lançou-se em Joinville como candidato ao governo pelo PSDB; Esperidião Amin fez o mesmo em Florianópolis, pelo Progressistas. Ambos desistiram no percurso. Bauer acabou candidato ao Senado na chapa de Mauro Mariani; Amin, também ao Senado, na composição liderada por Gelson Merisio.

Onda

O resultado é conhecido: a chamada “onda Bolsonaro” atropelou o establishment político catarinense. Carlos Moisés venceu o governo, enquanto Amin e Jorginho Mello garantiram as vagas ao Senado. Todos os demais protagonistas ficaram pelo caminho. A história se repetiu, em parte, em 2022, novamente com definições tardias e alianças improvisadas.

O movimento de Jorginho

Agora, o cenário é outro. Jorginho Mello antecipou-se, fez sua escolha e a tornou pública: fechou aliança com o Partido Novo e trouxe para a chapa o prefeito de Joinville, Adriano Silva, como candidato a vice-governador.

Ideologia

A sinalização foi clara e objetiva. A chapa majoritária está definida. Trata-se de uma composição liberal, ideologicamente alinhada, conectada ao campo da direita e em oposição frontal ao governo Lula no plano nacional. Mais do que isso: ao tomar essa decisão, Jorginho delimitou o espaço dos aliados tradicionais.

MDB e União Progressista fora

MDB e União Progressista — federação que reúne PP e União Brasil — acompanham o governo desde 2023. No entanto, com a definição antecipada da chapa, ficou explícito que, se permanecerem na coligação, será fora da majoritária. Os nomes que antes orbitavam esse espaço — Esperidião Amin para o Senado e Carlos Chiodini para a vice — perderam viabilidade dentro do projeto governista.

Incógnita

Diante disso, a pergunta inevitável se impõe: seguem com Jorginho, mesmo sem protagonismo, ou buscam caminhos próprios?

Caminhos improváveis

Um projeto conjunto entre MDB e União Progressista é, na prática, inviável. São partidos que se enfrentaram por décadas em Santa Catarina e hoje já não concentram o comando das principais prefeituras nem o protagonismo estadual.

Desunidos

O PSD, por sua vez, vive um impasse interno. João Rodrigues tenta consolidar sua candidatura há dois anos, mas não conta nem com a unidade do próprio partido. O principal prefeito da sigla, Topázio Neto, já declarou apoio à reeleição de Jorginho Mello.

Migração

Restam hipóteses frágeis: o MDB pode migrar para a frente de esquerda, que tende a ser liderada por um ex-conservador (Gelson Merísio) hoje filiado ao Solidariedade e com possível ingresso no PSB, numa chapa que teria Décio Lima ao Senado.

Também se cogita candidatura própria, embora o partido não disponha de um nome competitivo para tal empreitada. Não por acaso, o MDB reúne seu diretório estadual para discutir rumos — sinal inequívoco de incerteza estratégica.

A esquerda e seu teto

Do outro lado do espectro, a esquerda mantém seus partidos, seus quadros e sua organização. Mas também mantém um teto eleitoral conhecido: cerca de 20% no primeiro turno e algo próximo de 30% no segundo.

É um campo competitivo, porém insuficiente para ameaçar, neste momento, a hegemonia do atual governador.

Joinville, o Novo e o setor produtivo

Ao trazer Adriano Silva para a chapa, Jorginho Mello não agregou apenas o prefeito da maior cidade de Santa Catarina, reeleito com expressivos 78% dos votos. Trouxe também o peso econômico, político e simbólico de Joinville e do setor produtivo catarinense para o centro do seu projeto.

Alinhamento

Além disso, incorporou o Partido Novo a uma aliança que se alinha nacionalmente ao PL, reforçando o discurso liberal, empresarial e de oposição ao governo federal.

O comando do jogo

No fim das contas, quem dita o ritmo é quem lidera. Jorginho Mello é, hoje, o único nome sólido no cenário majoritário. Favorito à reeleição, conduz o processo sucessório com antecedência, método e cálculo político.

Tudo indica que Santa Catarina caminhará para uma polarização, no mesmo diapasão do contexto nacional.

Cláudio Prisco Paraíso

Blog do Prisco

Começou no jornalismo em 1980, no jornal O Estado. Atuou em diversos veículos de comunicação: repórter no Jornal de Santa Catarina, colunista no Jornal A Notícia e comentarista na RBS TV, TV RECORD, Itapema FM, CBN Diário e Radio Eldorado. Comenta diariamente em algumas rádios e publica sua coluna do dia em alguns jornais do Estado. Estreou em março de 2015, nas redes sociais e está no ar com o Blog do Prisco.

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