A movimentação eleitoral nos três estados do Sul começa a revelar um cenário cada vez mais cristalino para 2026: a repetição da polarização nacional entre lulismo e bolsonarismo. E, nesse contexto, Santa Catarina desponta como o caso mais emblemático. É o único estado sulista em que o governador estará disputando a reeleição. E não qualquer governador. Trata-se de Jorginho Mello, do PL, partido que se consolidou como principal braço político do bolsonarismo no país.
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Na semana passada, a coluna abordou a reorganização das forças de esquerda no Sul. O PDT terá candidaturas próprias ao governo no Rio Grande do Sul, com Juliana Brizola, neta de Leonel de Moura Brizola, e no Paraná, com Requião Filho, herdeiro político do ex-governador Roberto Requião.
Santa Catarina é a única exceção desse arranjo. Aqui, o PT abriu espaço para o PSB na candidatura de Gelson Merisio. O PDT, contudo, está indicando a vice na composição. Nesse contexto, chama atenção a movimentação de Angela Albino, que deixou o PCdoB para ingressar justamente no partido brizolista.
Liberais
Mas o elemento central desse tabuleiro continua sendo o PL. Especialmente no Sul, a tendência é de reprodução quase automática do enfrentamento nacional entre o partido de Jair Bolsonaro e o PT de Lula.
Gaúchos
No Rio Grande do Sul, o PL trabalha a candidatura do deputado federal Luciano Zucco, líder da legenda na Câmara. No Paraná, o movimento foi ainda mais contundente. Sergio Moro, ao perceber a insegurança interna na federação União Progressista — formada por União Brasil e PP —, migrou para o PL a convite de Flávio Bolsonaro. E aparece extremamente competitivo nas primeiras medições, com mais de 50% nas pesquisas.
Câmara Alta
Enquanto isso, o PT concentra esforços nas disputas ao Senado. No Rio Grande do Sul, o nome é o do deputado federal e ex-ministro Paulo Pimenta. No Paraná, surge Gleisi Hoffmann. Em Santa Catarina, o candidato natural é Décio Lima, compadre de Lula.
Repeteco
Em Santa Catarina, todos os sinais apontam para uma reedição do ambiente de 2022. Com a máquina estadual, forte identidade ideológica e eleitorado conservador consolidado, Jorginho Mello tende a monopolizar os votos bolsonaristas. Nesse cenário, o principal adversário do governador passa a ser Gelson Merisio — e não João Rodrigues.
João isentão?
O prefeito chapecoense enfrenta um problema político grave: falta identidade à sua candidatura. Está há mais de dois anos em pré-campanha e continua sem conseguir romper a barreira da competitividade estadual. Recebeu recentemente o afago político de Ronaldo Caiado, mas isso pouco altera o núcleo do problema.
Profissional
João comunica bem, tem desenvoltura de radialista e facilidade verbal. Foi radialista. Mas falta densidade ao discurso. Seu movimento resume-se a atacar Jorginho Mello e repetir que faria diferente. O problema é que ainda não disse exatamente o que faria. O pessedista tampouco apresentou um projeto claro de Estado.
Estilo papagaio
O ex-prefeito de Chapecó vive repetindo que vai comparar o que fez em Chapecó com a gestão atual em Santa Catarina. É um delírio, comparando situações absolutamente distintas. Não é intelectualmente honesto comparar a administração de uma cidade com a de um estado.
Estratégia
Ao tentar polarizar diretamente com o governador, João Rodrigues entra justamente no terreno onde Jorginho é mais forte. Os votos conservadores, ideológicos e bolsonaristas já têm dono.
Foco certeiro
É aí que a pré-campanha de Gelson Merisio ganha inteligência estratégica. Merisio tem origem conservadora. Passou por PFL, Democratas e PSD. Não possui histórico de esquerda. Isso lhe permite dialogar com setores moderados, ao mesmo tempo em que consegue aglutinar praticamente todo o campo canhoto catarinense.
Descarregando
Merisio receberá naturalmente os votos da esquerda. Mas tende também a capturar parcelas do eleitorado de centro e do PSD descontente. E esses votos sairão, majoritariamente, do projeto de João Rodrigues.
Território demarcado
Além da proximidade regional — Chapecó e Xanxerê —, há uma disputa direta por perfil político e espaço eleitoral. Com um discurso mais ajustado ao atual momento nacional, Merisio começa a ocupar um terreno que João ainda não conseguiu consolidar.
Federação
O cenário também provoca tensão dentro da recém-criada Federação União Progressista, envolvendo União Brasil e PP. Na matemática fria, a conta não fecha para todos. A federação soma cinco deputados estaduais, mas dificilmente manterá espaço proporcional equivalente. Traduzindo: haverá parlamentar em exercício sem garantia de sobrevivência política em 2026.
Panela de pressão
Essa pressão começa a mexer com os nervos de lideranças que já demonstram desconforto com o encaminhamento do PSD na disputa majoritária.
A sucessão catarinense ainda está em construção. Mas uma coisa começa a ficar evidente: o tabuleiro de 2026 tende menos à fragmentação e mais à concentração. E, no Sul do país, tudo indica que a polarização continuará sendo a grande força motriz das eleições.
Blog do Prisco
Começou no jornalismo em 1980, no jornal O Estado. Atuou em diversos veículos de comunicação: repórter no Jornal de Santa Catarina, colunista no Jornal A Notícia e comentarista na RBS TV, TV RECORD, Itapema FM, CBN Diário e Radio Eldorado. Comenta diariamente em algumas rádios e publica sua coluna do dia em alguns jornais do Estado. Estreou em março de 2015, nas redes sociais e está no ar com o Blog do Prisco.
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