A política não se constrói apenas com fatos. Ela se move, sobretudo, por narrativas. Quem não tem essa percepção costuma fomentar justamente o que muitas vezes não deseja. O Brasil já viveu esse roteiro três anos atrás.
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Na última eleição presidencial, quando Lula havia acabado de sair da prisão para disputar o pleito, formou-se uma onda que se dissipava. Nas ruas, propagava-se o seguinte: “saiu da cadeia e vai ganhar”. A repetição desse discurso ajudou a consolidar uma sensação de vitória antecipada.
E para quem não quer a manutenção do atual presidente no comando da Federação, não pode cair novamente nessa cilada. Desde já, quando o assunto for eleição, é preciso inverter o discurso. Ser redundante sem pensar que está assassinando a língua portuguesa.
O grito de guerra “vai perder, vai perder” tem que predominar. Política vive de ondas e quando uma onda se forma, ela atrai até quem não está convencido porque ninguém gosta de apostar no lado que aparenta estar perdendo. Em eleição, o eleitor tende a se mover para onde acredita que está a vitória.
Por isso, mudar o discurso não é apenas consertar um erro recente — é tática. Se a narrativa dominante for a de derrota inevitável, ela se fortalece sozinha. Mas se o discurso for invertido, o jogo muda. Afinal o Brasil vive um período de estagnação. Não houve um plano econômico consistente capaz de impulsionar crescimento, gerar empregos duradouros e devolver confiança ao país.
Questionar, apontar falhas e mostrar fragilidades ajuda a manter o discurso de derrota porque muitas vezes a eleição começa a ser decidida muito antes da campanha oficial.
A Havaianas sempre foi um símbolo popular do Brasil. Justamente por isso causa indignação ver uma marca desse porte optar por envolver militância ideológica, ainda que de forma disfarçada, mas covarde — típica estratégia de quem quer provocar sem assumir o ônus da provocação.
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O recente comercial onde a atriz Fernanda Torres, que sempre admitiu ter viés político de esquerda, não é ingênuo. A escolha do texto, do tom e do jogo de palavras envolvendo a expressão “não entrar o ano com o pé direito” ocorre num país profundamente polarizado. Fingir desconhecimento disso é subestimar nossa inteligência.
A atriz, que há anos se posiciona favorável ao PT, Lula e sempre teve favorecimento com a Lei Rouanet, também não é uma escolha neutra. Ela foi escolhida a dedo, com certeza, para se prestar a esse papel ridículo. Afinal em uma campanha de marketing tudo é muito bem calculado. Quem diz que não há intenção política nessa combinação mente ou faz de conta.
O que incomoda não é a existência de posicionamento. O problema é a militância envergonhada, aquela que provoca. A reação de consumidores conservadores e de direita é legítima e fomentar o boicote nesse caso não é extremismo, mas liberdade de escolha.
Da mesma forma que marcas escolhem discursos, consumidores escolhem onde gastar seu dinheiro. Isso é mercado. Isso é democracia. O que não é democrático é tratar qualquer reação da direita como histeria ou ignorância, enquanto militância explícita de esquerda é romantizada como engajamento social.
A direita brasileira está cansada de ser alvo de ironias travestidas de humor inteligente. Está cansada de pagar a conta de empresas que usam símbolos populares para agradar uma elite ideológica que despreza justamente o consumidor médio que sustenta essas marcas. Se a Havaianas quer fazer ativismo que faça às claras e assuma sua responsabilidade.
Blog do Bordignon
Em 2004, colou grau em jornalismo pela Universidade do Sul de Santa Catarina. É editor da edição impressa da Revista Única e, dos portais, www.lerunica.com.br e www.portal49.com.br.