Com a morte de Robert Duvall na última segunda-feira, 16 de fevereiro, que eternizou o personagem o “Poderoso Chefão”, a notícia me sugeriu uma reflexão em relação às eleições de outubro.
Afinal há algum “poderoso chefão” neste cenário eleitoral? Se poder fosse apenas cargo formal, os nomes mais lembrados seriam Jair Bolsonaro, Luiz Inácio Lula da Silva, Alexandre de Moraes ou Davi Alcolumbre e Hugo Mota, talvez.
Mas o fato é que o verdadeiro poder, no presidencialismo brasileiro, não se restringe necessariamente apenas à liderança que possui melhor cargo, ele está em quem consegue montar maioria, sustentar governo e transitar entre diferentes campos políticos.
E hoje, goste-se ou não, esse nome é Gilberto Kassab, presidente do Partido Social Democrático (PSD). Os números do partido são extremamente relevantes. A sigla reúne 42 deputados federais e 15 senadores — números suficientes para influenciar votações decisivas no Congresso.
A soma aumenta com a contabilidade de mais seis governadores, 887 prefeitos (o maior número do país) e 6.624 vereadores, o que garante capilaridade nacional, fundo eleitoral robusto e presença em praticamente todo o território brasileiro.
Além disso, o PSD comanda três ministérios no governo federal — Agricultura, Pesca e Minas e Energia — e Kassab ainda ocupa posição estratégica no governo de Tarcísio de Freitas. Isso significa ter influência tanto em Brasília quanto no maior colégio eleitoral do país.
Na prática, não importa quem vença a eleição presidencial. Para governar, será preciso maioria na Câmara e estabilidade no Senado. Será preciso negociar. E é aí que o PSD se torna peça central. O partido abriga governadores com perfil presidencial, como Ronaldo Caiado, Ratinho Júnior e Eduardo Leite, e dialoga com centro, direita e esquerda.
Minha leitura é que o PSD não será coadjuvante na próxima eleição. Pode não lançar o presidente da República, mas tem todas as condições de ser o fiel da balança.
No fim das contas, o presidente pode mudar — mas quem monta a maioria e sustenta o governo é quem realmente define o jogo. E hoje, na minha opinião, esse “poderoso chefão” da articulação política atende pelo nome de Gilberto Kassab, presidente nacional do PSD.
Eu assisti ao desfile da Acadêmicos de Niterói no Sambódromo da Marquês de Sapucaí justamente para apenas comprovar o que já era previsto. O espetáculo de horror enaltecendo o atual presidente foi digno da Coreia do Norte.
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O que deveria ser espetáculo cultural virou peça de propaganda política. Um desfile financiado com dinheiro público, sob um governo comandado por Luiz Inácio Lula da Silva, transformado em exaltação quase litúrgica do próprio presidente.
E não, não foi só homenagem. Foi palanque em forma de alegoria. Enquanto isso, o que ficou de fora?
Os escândalos. As condenações anuladas. As investigações. O histórico que inclui Mensalão, Operação Lava Jato, o caso do sítio de Atibaia, do INSS e do Banco Máster. Nada. Silêncio absoluto.
Eu fiquei esperando — confesso — que surgisse ao menos um carro alegórico fazendo referência à Odebrecht. Mas não. A história contada foi seletiva. Cuidadosamente editada e politicamente conveniente.
E como se não bastasse a omissão, veio o ataque. O ex-presidente Jair Bolsonaro foi ridicularizado. Pode-se gostar ou não de Bolsonaro — isso é da democracia. O que não é democrático é usar dinheiro público para atacar adversários políticos em pleno espetáculo financiado pelo Estado.
O que vimos na Sapucaí foi um dos episódios mais baixos de propaganda política recente. Um desfile que parecia menos samba e mais culto à personalidade.
Quando o Estado financia o elogio a si próprio e usa a cultura como ferramenta de ataque político, o sinal que se acende é perigoso. Muito perigoso. Foi um espetáculo deprimente.
Blog do Bordignon
Em 2004, colou grau em jornalismo pela Universidade do Sul de Santa Catarina. É editor da edição impressa da Revista Única e, dos portais, www.lerunica.com.br e www.portal49.com.br.