A corrida presidencial já nasce sob o signo da tensão máxima — e os números iniciais deixam pouco espaço para leituras complacentes. O presidente Lula da Silva aparece diante de um adversário que cresce em ritmo acelerado: o senador Flávio Bolsonaro. O que era visto como um movimento precoce começa a ganhar contornos concretos e inquietantes para o Palácio do Planalto.
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Flávio entra na disputa com menos de dois meses de exposição como presidenciável e já se coloca em patamar competitivo. Não é detalhe. Enfrenta um político que disputou a maior parte das eleições presidenciais desde a redemocratização e construiu uma trajetória marcada por vitórias e derrotas sempre no topo da disputa.
Dos dez pleitos presidenciais desde então — considerando o que ocorrerá este ano — Lula participou de sete. Ou seja, está no palanque há cerca de 40 anos.
Das seis eleições efetivamente disputadas por Lula, venceu três e perdeu três. Este ano será o desempate. Trata-se de um político carismático, de traços messiânicos, que sabe falar a linguagem popular, mas que, neste ciclo, dá sinais claros de desgaste, derretendo à luz do dia. É esse contexto que torna o crescimento do senador ainda mais consistente e indica uma transferência real do capital político do bolsonarismo, lastreada na memória eleitoral de Jair Bolsonaro.
Alerta no poder
O efeito imediato foi o acionamento do sinal amarelo no Palácio do Planalto. A movimentação de Fernando Haddad — que passou a admitir publicamente uma nova disputa pelo governo paulista — não é casual nem isolada.
Trata-se de uma tentativa clara de reorganizar trincheiras no maior colégio eleitoral do país e evitar um domínio quase absoluto do campo adversário.
Estratégia em São Paulo
A eventual candidatura de Haddad, possivelmente acompanhada por Simone Tebet e Marina Silva em uma composição majoritária — ambas disputando o Senado —, busca dois objetivos centrais: levar a disputa estadual ao segundo turno e reforçar a presença da esquerda na Câmara Alta.
Tudo isso ocorre sob a sombra do favoritismo estrutural do governador Tarcísio de Freitas, que hoje apresenta vantagem expressiva para a reeleição, com perspectiva real de liquidar a fatura já no primeiro turno.
O peso do Sudeste
A eleição presidencial tende a ser resolvida no eixo decisório formado por São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro — os três maiores colégios eleitorais do país. No Rio, a engrenagem governista passa por Eduardo Paes, historicamente ligado ao atual inquilino do Planalto. Em Minas, o projeto envolve a candidatura do senador Rodrigo Pacheco como palanque para Lula.
O ex-presidente do Senado resistiu inicialmente à ideia, sobretudo após ter ficado fora do STF, mas acabou convencido. Argumentos, ao que tudo indica, não faltaram.
Mineiro
No campo bolsonarista, a articulação mira o governador Romeu Zema como nome forte para compor a vice de Flávio Bolsonaro, além do expressivo poder de mobilização do deputado Nicolas Ferreira, que obteve 1,5 milhão de votos na última eleição. Trata-se de um fenômeno eleitoral e digital.
Importante registrar: esta eleição tem tudo para ser decidida exatamente nesses três estados, os principais colégios eleitorais do Brasil.
Nordeste menos determinante
O dado mais sensível para o lulismo é a tendência de redução da vantagem no Nordeste. A região segue favorável, mas já não com a mesma folga de pleitos anteriores — o que desloca o centro de gravidade da disputa para territórios mais competitivos e menos previsíveis.
Disputa aberta
O diagnóstico é direto: se o campo da direita obtiver desempenho robusto no Sudeste, a eleição deixa de ter um favorito claro.
Nesse ambiente, Lula da Silva enfrentará sua campanha mais dura em décadas, com risco real de encerrar sua trajetória política sob derrota — um cenário que, até pouco tempo atrás, parecia improvável e hoje já não pode ser descartado.
Blog do Prisco
Começou no jornalismo em 1980, no jornal O Estado. Atuou em diversos veículos de comunicação: repórter no Jornal de Santa Catarina, colunista no Jornal A Notícia e comentarista na RBS TV, TV RECORD, Itapema FM, CBN Diário e Radio Eldorado. Comenta diariamente em algumas rádios e publica sua coluna do dia em alguns jornais do Estado. Estreou em março de 2015, nas redes sociais e está no ar com o Blog do Prisco.
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