O Brasil vive hoje uma das maiores distorções do seu sistema político desde a redemocratização. Em pleno funcionamento, são 35 partidos políticos com registro no Tribunal Superior Eleitoral. Outros tantos aguardam na fila por autorização. Trata-se de um quadro que beira o absurdo institucional e que ajuda a explicar boa parte da crise de representação, da incoerência programática e do oportunismo eleitoral que marcam a vida pública nacional.
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Em qualquer democracia minimamente organizada, quatro ou cinco partidos sólidos seriam mais do que suficientes para refletir as principais correntes ideológicas da sociedade. No Brasil, no entanto, a proliferação de siglas virou negócio, instrumento de sobrevivência eleitoral e moeda de troca no Congresso Nacional. Somente uma ampla e profunda reforma política poderia enfrentar esse inchaço que desvirtua não apenas as legendas, mas também o comportamento dos detentores de mandato.
Polarização real, pragmatismo geral
Entre os 35 partidos existentes, apenas dois mantêm coerência nacional e não se coligam entre si em nenhum estado da Federação: PT e PL. São eles que personificam a polarização real do país — de um lado, o lulismo; de outro, o bolsonarismo.
Fora dessa disputa central, o que se vê é um festival de acordos regionais, alianças circunstanciais e arranjos pragmáticos, moldados conforme o interesse local, a força do governo da vez e o perfil dos atores políticos envolvidos.
O mapa das conveniências
No Norte e no Nordeste, partidos de centro e centro-direita tendem a gravitar em torno do presidente Lula. Do Centro-Oeste para baixo, o alinhamento costuma pender para o campo bolsonarista. A ideologia, quando existe, é detalhe. O que vale é a conveniência eleitoral e administrativa.
Essa flexibilidade extrema ajuda a explicar por que o eleitor já não consegue identificar com clareza o que cada partido representa — quando representa alguma coisa.
A nova frente
Nesse cenário difuso, surge um protagonista: o PSD. A legenda comandada por Gilberto Kassab passou a ocupar o espaço que durante décadas pertenceu ao MDB — de uma frente, capaz de dialogar com todos os campos ideológicos conforme a geografia e o momento político.
O MDB, que nasceu como frente ampla no fim do bipartidarismo Arena-MDB, perdeu musculatura, densidade política e, sobretudo, o controle do maior número de prefeituras do país. Hoje, esse posto pertence ao PSD, que ultrapassou o antigo gigante em capilaridade municipal.
Minas, Rio Grande e a elasticidade do PSD
Em Minas Gerais, segundo maior colégio eleitoral do Brasil, o PSD construiu uma aliança com o governador Romeu Zema, do Novo. O vice era do Novo, migrou para o PSD, e a composição PSD–Novo se desenha como eixo central da sucessão estadual.
No Rio Grande do Sul, o cenário é oposto. Lula esteve no estado recentemente e foi recebido pelo governador Eduardo Leite, recém-filiado ao PSD após deixar o PSDB. Apesar das vaias de setores petistas, a sintonia institucional entre Leite e o Planalto é evidente. Em outros estados, o PSD se associa ora ao Republicanos, ora ao PDT e assim por diante— compondo as mais variadas coligações possíveis, sempre guiado por cálculo político.
Santa Catarina: incoerência e realidade
Em Santa Catarina, o quadro revela as contradições desse modelo. O prefeito João Rodrigues, pré-candidato ao governo e que sempre se apresentou como bolsonarista “raiz”, passou a flertar com o projeto nacional do governador do Paraná, Ratinho Júnior, apontado por alguns como possível presidenciável.
O problema é simples: sem unidade nacional e sem coerência estadual, qualquer aventura presidencial do PSD tende ao fracasso. Se Ratinho não for candidato — como tudo indica —, João Rodrigues retorna ao discurso bolsonarista original. Lembrando que os pessedistas ocupam três ministérios no governo Lula.
A polarização catarinense
Diante desse cenário, o desfecho em Santa Catarina parece inevitável: polarização. De um lado, o centro-direita, representado pelo governador Jorginho Mello, candidato natural e favorito à reeleição. Do outro, o campo da centro-esquerda, que pode ter Décio Lima ou algum nome “emprestado” com perfil conservador, numa tentativa de capturar votos moderados e forçar um segundo turno. O restante é ruído — produzido por um sistema partidário inflado, incoerente e cada vez mais distante daquilo que o eleitor espera da política.
Há, Brasil afora, uma quantidade expressiva de lideranças políticas e partidárias — inclusive em Santa Catarina — acreditando em formulações eleitorais que não resistem ao mais elementar teste da realidade. São teses, nomes e articulações que não convencem sequer a proverbial “velhinha de Taubaté”. Trata-se, em muitos casos, de pura narrativa para consumo interno, sem qualquer lastro eleitoral concreto.
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No debate sobre a sucessão presidencial, essa desconexão com os fatos salta aos olhos. Especulam-se muitas candidaturas, especialmente no campo da direita, mas o quadro real, objetivo e verificável aponta para um cenário muito mais restrito. No fim do dia, o Brasil caminha para uma disputa com apenas três alternativas efetivas — e talvez apenas duas.
O campo da esquerda
À esquerda, não há mistério. O presidente Lula da Silva é o candidato natural à reeleição. Terá, como sempre, uma ampla frente de apoio que vai do PDT ao PSB, passando por Rede, PCdoB, PSOL, PV e congêneres. Os partidos de extrema esquerda — como PSTU e PCO — seguem no papel que sempre desempenharam: irrelevantes do ponto de vista eleitoral.
Eventuais candidaturas “exóticas”, como a do ex-deputado Aldo Rebelo, cumprem apenas função figurativa. Participam do processo, mas não interferem no resultado.
O campo da direita
Do outro lado do espectro, o discurso é muito mais barulhento do que consistente. Jair Bolsonaro já fez sua escolha: indicou o filho, senador Flávio Bolsonaro, como herdeiro político. E chama atenção o fato de, em pleno ano eleitoral, Flávio reservar semanas para viagens ao exterior, enquanto, simultaneamente, Bolsonaro articula um encontro com o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas.
Nada disso é aleatório. A pergunta central é simples: quem, de fato, tem densidade eleitoral para enfrentar Lula?
Os “governadores candidatos”
Romeu Zema é um excelente nome — para compor uma chapa, eventualmente como vice. Ronaldo Caiado e Ratinho Júnior, governadores reeleitos de Goiás e do Paraná, respectivamente, já têm destino praticamente selado: disputarão o Senado. Chance real de candidatura presidencial? Zero.
Podem até se apresentar como pré-candidatos. Podem, em tese, renunciar aos cargos até o prazo legal de abril. Mas ninguém os leva a sério como postulantes ao Planalto. Caiado ensaia esse discurso desde o ano passado. Ratinho Júnior entrou agora com mais ênfase, condicionando sua candidatura ao apoio do PSD.
O PSD e o limite da retórica
A conta não fecha. Em estados-chave do Norte e do Nordeste — a Bahia é apenas um exemplo — o PSD já está no projeto de reeleição de Lula. A ideia de que Gilberto Kassab asseguraria apoio “do Centro-Oeste para baixo” ignora a realidade interna do partido.
Kassab, hoje, depende diretamente de Tarcísio de Freitas. Seu poder nacional passa, necessariamente, pelo governo de São Paulo. A hipótese de ele se lançar candidato ao governo paulista se Tarcísio for à Presidência é risível: nas pesquisas, aparece com cerca de 1%. No máximo, garantiria uma deputação federal. Não há, portanto, como o PSD sustentar uma candidatura presidencial de Ratinho Júnior.
O jogo real
Reduzido o ruído, o cenário fica cristalino. Contra Lula, restam duas possibilidades reais: Flávio Bolsonaro, se a opção for manter a polarização personalista, lulismo versus bolsonarismo; Tarcísio de Freitas, se Bolsonaro decidir migrar para uma disputa mais institucionalizada, de centro-direita contra centro-esquerda. É simples assim. Fora disso, é fantasia.
O ponto de inflexão
Aqui está o eixo da questão. Se Bolsonaro confirmar Tarcísio como candidato à Presidência — tendo Michelle Bolsonaro, Flávio ou mesmo Zema como vice — a pressão sobre Lula será enorme. Especialmente considerando que 56% dos brasileiros afirmam que ele não deveria concorrer e que o governo enfrenta reprovação de cerca de metade da população.
Nesse cenário, não será trivial para Lula “segurar o rojão” e confirmar sua candidatura. Até lá, o resto é espuma retórica. O jogo real está posto. Agora, é observar o desenrolar dos acontecimentos.
Blog do Prisco
Começou no jornalismo em 1980, no jornal O Estado. Atuou em diversos veículos de comunicação: repórter no Jornal de Santa Catarina, colunista no Jornal A Notícia e comentarista na RBS TV, TV RECORD, Itapema FM, CBN Diário e Radio Eldorado. Comenta diariamente em algumas rádios e publica sua coluna do dia em alguns jornais do Estado. Estreou em março de 2015, nas redes sociais e está no ar com o Blog do Prisco.