De certa forma, surpreendeu a agenda de Lula da Silva em Santa Catarina, mais precisamente em Itajaí, nesta quinta-feira. No começo da semana, ele enfrentou, novamente, problemas de saúde e uma crise de labirintite. Não se pode perder de vista que estamos falando de um cidadão com quase 80 anos.
O petista, que nunca desceu do palanque, segue em plena campanha, já mirando 2026. Enfrentou a altitude e, já na quarta-feira, marcou presença no Nordeste, em Pernambuco e na Paraíba. Ontem pela manhã, esteve no estado vizinho do Paraná e, depois, desembarcou em território catarinense.
O que demonstra, muito claramente, a disposição de Lula da Silva em torno da recandidatura, mesmo considerando a fragilidade de sua gestão, o desgaste político e, digamos assim, a vulnerabilidade eleitoral que fica evidenciada em todas as pesquisas de opinião.
Então, Lula marcando presença em Santa Catarina é um sinal inequívoco de que deseja, seguramente, com isso, reduzir a margem eleitoral que Bolsonaro abriu em relação a ele em 2022.
Margem
Foi 70% a 30% em favor do ex-presidente. Foi de goleada. Em princípio, tudo leva a crer que, com Bolsonaro fora do pleito, Lula, muito provavelmente, alimenta a possibilidade de reduzir essa distância e apresentar uma melhor performance por aqui.
Lorotas
Agora vamos falar da visita propriamente dita. Ele, no ano passado, também esteve em Itajaí, no Porto, prometeu uma série de medidas, anunciou uma série de ações, e nada até aqui foi implementado.
Fora dessa
Aliás, por falar em desgaste político, o governador Jorginho Mello tem que abrir o olho, precisa estar atento, porque, mais uma vez, ele ignora a presença de Lula da Silva no estado. E isso pode custar muito caro a ele. O catarinense evita, a todo custo, uma imagem, um vídeo, uma foto com Lula. Bobagem.
Conexões
O eleitorado sabe que ele é correligionário liberal de Jair Bolsonaro, que o apoia. Agora, ele poderá ser responsabilizado, lá na frente, por omissão ao não ter assegurado recursos da União para Santa Catarina, justamente por não cumprir suas obrigações institucionais como governador.
Palanque
É óbvio que o governador não foi ao evento, pomposo, de Lula da Silva e seus camaradas porque o atual inquilino do Planalto está em campanha. Aliás, não desce do palanque desde 1979. O ato no terminal que o PT de Décio Lima tomou de Itajaí — o navio chinês — foi um gigantesco palanque. Literalmente eletrizante, em função de sua carga de mais de 7 mil carros elétricos.
Derrapada
Ocorre que o próprio Jorginho também está em campanha desde que assumiu, lá em janeiro de 2023. Em linhas gerais, o modus operandi é o mesmo: o cidadão ganha a eleição, nem assume e já começa a pensar na reeleição. Por esse motivo, a lei eleitoral deveria estabelecer mandatos únicos de cinco ou seis anos para o Executivo. E ponto final.
Estreou, nesta segunda-feira, a propaganda eleitoral gratuita do PSD fora da campanha eleitoral.
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Toda ela dedicada, nas inserções, ao prefeito reeleito de Chapecó, João Rodrigues, condição na qual ele se apresenta não apenas como o nome que o PSD vislumbra ao governo do
Estado em 2026, mas também para mostrar a sua gestão na capital do Oeste catarinense. Na primeira aparição, Rodrigues concentrou-se na questão relacionada aos moradores de rua. O PSD está deixando muito claro que a pré-candidatura é para valer. Não faz parte de uma encenação.
Portanto, o partido pretende viabilizá-lo como alternativa conservadora para 2026, numa queda de braço com o candidato natural à reeleição, Jorginho Mello.
Isso ficou evidenciado pelo deslocamento de três importantes lideranças para um evento no domingo à noite, em São Paulo, convocado pelo presidente nacional Gilberto Kassab.
Rodada que marcou a filiação ao PSD do ex-governador, de três mandatos no Espírito Santo, Paulo Hartung.
Peso nacional
Kassab vai fortalecendo ainda mais o PSD. Na semana passada, filiou Eduardo Leite, governador do Rio Grande do Sul. No mês passado, já havia arregimentado a governadora de Pernambuco, Raquel Lyra, ambos deixando o ninho dos tucanos.
Reunidos
Aliás, todos eles estavam presentes no evento de São Paulo, segunda-feira, assim como Ratinho Júnior, governador reeleito do Paraná, que é o nome natural à presidência da República, embora Eduardo Leite também se apresente como tal.
Fator local
De Santa Catarina, quem foi para esse evento? O presidente da Assembleia, Júlio Garcia; o presidente estadual do partido, Eron Giordani; e o ex-senador, ex-governador e ex-ministro Jorge Bornhausen.
Tripé
Os três, aliás, estão comprometidos com o projeto eleitoral de João Rodrigues. A quarta presença foi a do prefeito da Capital, Topázio Silveira Neto, que administra a principal cidade do PSD em Santa Catarina.
Alinhamento
Ocorre que Topázio já está alinhado com o projeto de recondução de Jorginho Mello, além de defender a tese de que o PSD deve estar na chapa, com Jorginho cabeça e Júlio Garcia como vice.
Pra valer
Feita essa introdução, o que se observa é o PSD demonstrando claramente que pretende compor uma majoritária. Até para reforçar as suas chapas à Assembleia e à Câmara Federal no contexto proporcional.
Siglas
O problema é: quais partidos o PSD vai conseguir atrair? Esse é um ponto crucial, porque a maioria das siglas já está comprometida com Jorginho Mello, como é o caso do PDR, resultado da fusão do Patriota com o PTB; ou do Republicanos, cujo vice-presidente é o irmão do governador, além de ser presidido pelo deputado federal Jorge Goetten e intimamente ligado a Jorginho Mello. Esperidião Amin também entra nessa conta, fazendo todo o trabalho para levar a federação que reúne a União Brasil e o PP à direção de Jorginho Mello.
Governista
O PP está no governo, não fechou ainda, mas está nesse contexto da federação, assim como o União Brasil, pilotado por Fábio Schiochet. E ainda tem o MDB, igualmente instalado na administração estadual, que poderá fazer uma federação com o Republicanos.
Migrando
O Podemos, que estava com João Rodrigues, também já se acertou com Jorginho Mello. E, se tiver federação com o PSDB lá em cima, é mais um partido ao lado do governador.
Isolamento
Sobra quem para o PSD? O Novo, se não estiver com o Jorginho, possivelmente estará numa postura de neutralidade, embora o prefeito de Joinville, Adriano Silva, tenha sinalizado na direção da reeleição do atual governador.
Partido
Nessa toada, não sobra partido algum para João Rodrigues. E nem o seu PSD vai inteiro com ele. Porque Paulinho Bornhausen, secretário de Jorginho Mello, e Topázio Neto, além de outras lideranças pessedistas que serão atraídas, estarão junto ao governador no projeto de reeleição.
Voo solo
Por fim, imperioso registrar que o PSDB parece desejar lançar candidatura ao governo do Estado. Se terá viabilidade eleitoral, aí é outra questão.
Blog do Prisco
Começou no jornalismo em 1980, no jornal O Estado. Atuou em diversos veículos de comunicação: repórter no Jornal de Santa Catarina, colunista no Jornal A Notícia e comentarista na RBS TV, TV RECORD, Itapema FM, CBN Diário e Radio Eldorado. Comenta diariamente em algumas rádios e publica sua coluna do dia em alguns jornais do Estado. Estreou em março de 2015, nas redes sociais e está no ar com o Blog do Prisco.