Fechar [x]
APOIE-NOS
Tubarão/SC
24 °C
10 °C

"Mounjaro dos cães" : emagrecer o pet virou negócio bilionário

Entre o snack de salmão e a corrida pelo "Ozempic dos animais"

Por Redação, Revista Única
08/09/2026 - 19h12
Estratégia remete inevitavelmente ao fenômeno das canetas emagrecedoras - Foto: Coyote/ Revista Única

Cerca de 60% dos cães e gatos do mundo estão acima do peso, e o problema não é só estético. A obesidade eleva o risco de problemas ortopédicos, resistência à insulina, inflamações crônicas, diabetes e alguns tipos de câncer, além de encurtar a expectativa de vida dos animais. Por trás desse número, há uma mudança silenciosa na relação entre humanos e pets.

:: Quer receber gratuitamente notícias por WhatsApp? Acesse aqui

Os animais passam mais tempo dentro de casa, correm menos e convivem com uma oferta crescente de petiscos. O comportamento dos tutores alimenta o ciclo. 41% oferecem petiscos quando percebem o animal triste, entediado ou solitário, e três em cada quatro admitem dar comida humana aos pets.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Onde há um problema de saúde, há também uma oportunidade de mercado. E o mercado pet brasileiro já percebeu. São cerca de 160 milhões de animais de estimação no país, a terceira maior população pet do mundo, atrás de EUA e China, em um setor que movimenta aproximadamente `R$ 75 bilhões` por ano.

Durante décadas, esse dinheiro girou em torno de rações, medicamentos e banho e tosa. Agora, cresce a demanda por prevenção, bem-estar e qualidade de vida, categorias que já movimentam bilhões de dólares nos Estados Unidos e no Reino Unido.

É nesse cenário que o empresário Roberto Funari, ex-CEO da Alpargatas e fundador da Viepet (marca Wigow), investiu `R$ 8 milhões` em um suplemento em formato de snack para o controle de peso de cães.

A promessa é aumentar a saciedade com proteínas de salmão e fibras, em uma estratégia que remete inevitavelmente ao fenômeno das canetas emagrecedoras. A diferença essencial é que o snack não contém semaglutida nem tirzepatida, os princípios ativos de Ozempic e Mounjaro.

Mas o apelido de "Mounjaro dos cães" não é só marketing. É também um espelho do que está por vir. No exterior, a corrida pelo primeiro medicamento GLP-1 aprovado para pets já começou. A americana Okava testa um microimplante que libera o medicamento por até seis meses em gatos obesos, no estudo MEOW-1, o primeiro ensaio clínico do tipo no mundo.

Já a Akston avalia uma injeção semanal em estudo na Universidade Cornell. Os resultados preliminares animam. Um estudo mostrou 18% de perda de peso em cães em 24 semanas, sem perda de massa muscular.

Os números, porém, convivem com alertas importantes. Nenhum GLP-1 tem aprovação para uso veterinário, nem pela FDA, nem pela Anvisa. No Brasil, o estudo da Universidade Federal de Uberlândia (UFU) com liraglutida em gatos obesos registrou quase 10% de perda de peso em duas semanas, mas com efeitos colaterais expressivos, como vômito, diarreia e desinteresse acentuado pela comida.

Em março de 2026, CRMV-SP e CRF-SP emitiram nota técnica classificando o uso na veterinária como inabitual, sem respaldo científico consolidado e restrito ao ambiente de pesquisa. 

Enquanto a ciência não entrega um produto aprovado, o mercado aposta em atalhos. E é aí que o debate se acende no mundo veterinário. Nenhum suplemento ou medicamento substitui uma rotina saudável, com comida equilibrada, passeios e corridas. Exercício, afinal, vai muito além do cuidado estético. É instinto, é necessidade do animal. A provocação do médico-veterinário Edson Burtet resume a inquietação.

"Quem serve a comida e controla a quantidade que vai no pote do pet?!"

A pergunta nos faz refletir. Diante de um mercado bilionário que promete atalhos para a saúde dos pets, será essa a melhor forma de tentar promover saúde aos animais?

Talvez a resposta não esteja nos atalhos, mas em praticar aquilo que traz resultado positivo para a saúde do pet e do humano. Atividade ao ar livre, passeios e tempo de brincadeira. E a percepção de que um animal saudável não é aquele que apenas come bem, mas o que se move, explora e vive como sua natureza pede.

Marina Ribeiro é sócia proprietária Coyote VetShop, Administradora de Empresas, Mentora de Gestão Estratégica Vet, Desenvolvedora do Método E.L.O.S - focado na gestão de clínicas veterinárias e petshop, com aumento de lucratividade. Conheça mais detalhes em seu no perfil do Instagram @mentoravet

  • 1 / 1
Marina Ribeiro é sócia própria Coyote VetShop, Administradora de Empresas, Mentora de Gestão Estratégica Vet, Desenvolvedora do Método E.L.O.S - Foto: Arquivo Pessoal/Revista Única

+Lidas

Revista Única
www.lerunica.com.br
© 2019 - 2026 Copyright Revista Única

Portaliza - Plataforma de Jornalismo Digital

Utilizamos cookies e tecnologia para aprimorar sua experiência de navegação de acordo com a nossa Política de Privacidade. FECHAR