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Entre conflitos e esperança

Policial de Tubarão relembra missão humanitária da ONU no Sudão do Sul

Por Redação
31/07/2026 - 07h17
Cabo Thelmo Cabral - Foto: Joyce Santos/Revista Única

Deixar a rotina, a família e o país para trabalhar em uma das regiões mais vulneráveis do mundo exige preparo e coragem. Foi esse o desafio enfrentado pelo cabo da Polícia Militar de Santa Catarina (PMSC), do 5º Batalhão de Polícia Militar, Thelmo Cabral, ao integrar a Missão das Nações Unidas no Sudão do Sul (UNMISS), considerada uma das mais complexas operações de paz da atualidade.

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Durante um ano, o policial atuou como consultor de polícia na cidade de Bor, capital do Estado de Jonglei, no Sudão do Sul, na África Oriental. Na função, foi responsável por treinar agentes locais, apoiar a população civil e intermediar conflitos. Na região, marcada por pobreza extrema, insegurança alimentar e tensões étnicas, Thelmo era o único policial brasileiro em atividade.

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A experiência, segundo ele, começou com um rigoroso processo seletivo e preparação intensa antes do embarque. “É necessário ter fluência em inglês e disponibilidade imediata para seguir na missão. Eu fiz a prova, fui selecionado e estava pronto para ir quando surgiu a vaga”, explica Cabral.

Ao chegar ao país africano, o impacto foi imediato. Além das diferenças culturais, a realidade social expôs um cenário de escassez e fragilidade institucional. Em algumas localidades onde atuou, como Akobo e Pibor — esta última considerada uma das áreas mais pobres e conflagradas do país — as condições eram ainda mais desafiadoras.

Direitos humanos em meio à extrema vulnerabilidade. “É uma situação muito triste. Ver crianças em meio à miséria, algumas já destinadas a casamentos. As mulheres também sofrem muito nesse contexto. Chegamos a encontrar detentas confinadas em celas com homens. Então, nós agíamos para que os direitos mínimos dessas pessoas fossem garantidos”, detalha. Outro grave problema que o cabo Thelmo ainda sente ao descrever sua experiência é a questão da fome.

“Lá havia muitos pés de manga, diversas árvores da fruta. Porém, eu nunca vi um fruto ficar maduro. Todos eram arrancados ainda verdes na guerra pela sobrevivência. E me impressionou muito quando nós recebemos uma missão de ir até uma localidade em que havia ocorrido genocídio cerca de seis meses antes. Lá, eu vi uma abóbora podre, justamente porque todos haviam sido mortos. A constatação do genocídio me chocou”, relata Thelmo.

Como consultor da ONU, o militar trabalhou diretamente com temas sensíveis, como violência de gênero, direitos humanos e resolução de conflitos. Também contribuiu para a implementação de práticas de policiamento comunitário e ministrou treinamentos voltados tanto para policiais quanto para lideranças locais.

Olhar internacional sobre a segurança pública 

A vivência internacional também permitiu uma análise comparativa entre forças de segurança de diferentes países. De acordo com Thelmo, a estrutura, a qualificação profissional e os recursos disponíveis na Polícia Militar de Santa Catarina colocam a corporação em posição de destaque no cenário internacional.

Além dos desafios profissionais, a missão trouxe reflexões pessoais. O contato direto com situações de fome, deslocamento forçado e ausência de serviços básicos reforçou a importância de aspectos muitas vezes considerados simples no cotidiano brasileiro.

Mesmo diante das dificuldades, o policial destaca o valor da troca cultural e da solidariedade entre os povos. Elementos como o futebol, por exemplo, ajudaram a criar vínculos e facilitar o diálogo com a população local.

Uma nova perspectiva de vida 

Após retornar ao Brasil, em julho de 2023, Thelmo trouxe na bagagem não apenas a experiência profissional, mas também uma nova perspectiva de vida. Para ele, missões como essa exigem preparo técnico, equilíbrio emocional e, sobretudo, disposição para servir em contextos extremos.

A trajetória do cabo catarinense ilustra o papel desempenhado por brasileiros em operações internacionais de paz e evidencia os desafios enfrentados por quem atua diretamente em cenários de crise humanitária.

Natural do Rio de Janeiro, o cabo Thelmo atualmente mora com a família em Laguna. A esposa, Sabrina, e a filha Isadora, de seis meses, são suas grandes paixões.

“Mas eu também vivencio um grande amor pela questão humanitária. E, mesmo em meio a condições bem melhores, ainda encontramos muitos desafios aqui no Brasil — diversos daqueles vividos no Sudão do Sul, mas também significativos para a nossa atuação como força de segurança”, reflete.

O contraste entre o cuidado com os direitos humanos e a visão que muitas pessoas têm em relação à polícia, finaliza Thelmo, “exigem entrega e comprometimento com o papel que assumimos para contribuir com a nossa sociedade”.

*Entrevista publicada na edição de maio de 2026 - Texto: Joyce Santos.

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