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Quando o barulho das obras não é ouvido por todos

Por Misael Elias
07/05/2026 - 13h42

Uma cidade em movimento

Quem anda por São Ludgero nos últimos meses percebe uma coisa com facilidade: a cidade está em movimento. E não é força de expressão. São máquinas nas ruas, obras acontecendo em diferentes pontos, intervenções que mudam a paisagem e exigem paciência de quem passa, mora ou trabalha por ali.

Tem obra no centro, no bairro, no interior. Tem reforma no Paço Municipal. Tem intervenção no CEI Dom Gregório. Tem enrocamento no rio. Tem construção de uma nova UBS. Tem pavimentação em diversas vias urbanas. Tem estrada rural recebendo melhorias. Tem revitalização sendo feita em parceria com o CIM da Amurel.

É o tipo de cenário que, em qualquer cidade, chama atenção. Mas nem sempre é assim que ele é percebido.

A cena que diz muito

Outro dia, em uma conversa comum — dessas que acontecem no café, no corredor, na praça — ouvi algo que ficou na cabeça: “Parece que não está acontecendo nada.”

A frase, dita com naturalidade, contrasta com tudo o que está visivelmente acontecendo ao redor. E talvez seja exatamente aí que mora uma reflexão importante.

Porque, enquanto a cidade vive um dos momentos mais intensos em termos de execução de obras, existe uma sensação — em parte das pessoas — de que isso não está sendo percebido na mesma proporção.

E isso não é exclusividade de São Ludgero. Mas aqui, hoje, isso fica ainda mais evidente.

Entre o concreto e a percepção

Existe uma diferença clara entre o que é feito e o que é percebido. A execução está ali: concreta, visível, mensurável.

A percepção, não. Ela é construída. E, muitas vezes, é influenciada por detalhes. Um atraso em uma obra. Um transtorno no trânsito. Um comentário negativo. Uma situação pontual que poderia ter sido evitada.

Pequenos pontos ganham força. E, sem perceber, passam a ocupar um espaço maior do que deveriam. O resultado é simples: aquilo que é positivo começa a ser ofuscado por aquilo que incomoda.

E isso levanta uma pergunta importante: o problema está na falta de entrega ou na forma como ela é enxergada?

O paradoxo de um momento positivo

Hoje, São Ludgero vive um momento que muitos municípios gostariam de viver. Obras acontecendo ao mesmo tempo. Agilidade nos processos.

Reconhecimento regional e estadual pela capacidade de execução.

Não é comum ver uma cidade pequena com tantas frentes abertas simultaneamente. Isso exige planejamento, organização e capacidade de gestão.

Mas, ao mesmo tempo, existe um paradoxo curioso: quanto mais se faz, mais pontos de desgaste aparecem. Porque fazer gera impacto. E impacto gera reação.

O que se fala — e o que se deixa de ver
Nos bastidores, nos corredores da prefeitura e também nas conversas do dia a dia, essa percepção já virou tema.
Existe, sim, um reconhecimento externo.

Mas, internamente, nem sempre isso se traduz da mesma forma. E isso não significa que as críticas não tenham valor. Pelo contrário. Elas fazem parte do processo. Ajustam rotas, apontam falhas, melhoram a execução.

Mas talvez o ponto de equilíbrio esteja em conseguir enxergar o todo. Nem tudo é perfeito. Nem tudo é erro. E, principalmente, nem tudo pode ser reduzido a um detalhe negativo.

Uma reflexão que fica

Talvez o maior desafio de uma cidade em crescimento não seja apenas executar obras. Seja conseguir fazer com que as pessoas percebam o que está sendo construído. Porque, no fim, não se trata de defender gestão ou ignorar problemas.

Se trata de reconhecer contexto. E o contexto hoje é claro: São Ludgero está avançando. Com ajustes? Sim. Com desafios? Também. Mas avançando.

E, às vezes, no meio do barulho das máquinas, da poeira das obras e das críticas do dia a dia, o que mais precisa ser feito não é acelerar. É parar um pouco… e observar.

Comunicar em tempos de pressão — e a responsabilidade de representar

Por Misael Elias
27/03/2026 - 09h50

Quando o cenário exige mais da comunicação. Há momentos em que trabalhar com comunicação pública deixa de ser apenas uma função técnica e passa a ser, na prática, um exercício diário de responsabilidade.

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Especialmente quando o ambiente exige mais do que divulgação: exige leitura de cenário, equilíbrio e, acima de tudo, consciência sobre o impacto de cada decisão —
inclusive das não decisões.

Nas últimas semanas, vivemos um desses momentos. Situações que ganham espaço público naturalmente pressionam a comunicação institucional. Não apenas pelo
conteúdo em si, mas pela expectativa que se cria em torno de respostas, posicionamentos e clareza. É nesse contexto que o papel da comunicação se torna ainda
mais evidente — e também mais desafiador.

Comunicar em tempos de normalidade é importante. Mas comunicar em tempos de tensão é o que realmente define a maturidade de uma estrutura pública.
E é justamente vivendo esse tipo de cenário, por dentro, que a gente passa a entender que comunicação não é apenas o que se publica. É o que se decide. É o tempo da resposta. É o cuidado com a informação. É a responsabilidade de não ampliar ruídos, mas também de não ignorá-los. Não existe fórmula pronta. Existe critério.

Entre a prática e o discurso

E talvez seja justamente aí que a comunicação pública deixa de ser teórica e passa a ser real.
Porque é muito diferente falar sobre transparência, posicionamento e conexão quando tudo está sob controle.

O desafio aparece quando o ambiente muda, quando surgem questionamentos e quando a expectativa da população cresce. É nesse momento que a comunicação precisa sair do automático.
Não para reagir de forma impulsiva, mas para agir com consciência.

Entender o cenário, avaliar o impacto e, principalmente, reconhecer que a ausência de posicionamento também comunica. Quem vive a rotina da gestão sabe que nem tudo é imediato. Há processos, há limites institucionais, há cuidados necessários. Mas há também um ponto que não pode ser ignorado: a percepção pública não espera.

O peso de representar

Em meio a esse contexto, surge uma oportunidade que carrega um significado ainda maior. Nos próximos dias, estarei participando como palestrante do 9º Congresso
Catarinense de Cidades Digitais e Inteligentes, em Balneário Camboriú, integrando o painel “Comunicação Pública que Conecta”.

Mais do que um evento, o congresso se consolidou como um dos principais encontros do estado quando o assunto é inovação no setor público. Reúne gestores, técnicos e profissionais que lidam diretamente com os desafios de modernizar a administração e aproximar o poder público da população.

Dividir esse espaço com outros profissionais é, sem dúvida, uma responsabilidade. Mas também é uma oportunidade de troca. Porque a comunicação pública não se constrói apenas com planejamento — ela se constrói com vivência.

E falar sobre comunicação enquanto se vive, na prática, um momento sensível dentro da própria estrutura pública, muda completamente a perspectiva. Tira o discurso do campo teórico e leva para um lugar mais verdadeiro.

Comunicação que realmente conecta

O tema do painel não poderia ser mais atual. Falar em “comunicação que conecta” vai muito além de presença digital ou produção de conteúdo. Conexão exige coerência. Exige consistência. Exige postura.

Hoje, a forma como uma gestão se comunica impacta diretamente na forma como ela é percebida. Não basta fazer. É preciso saber explicar. Não basta entregar. É preciso saber mostrar. E, quando necessário, é preciso saber se posicionar.

Ao longo da programação, diferentes profissionais irão compartilhar experiências sobre inovação, gestão e relacionamento com o cidadão. Isso reforça o quanto a comunicação deixou de ser um setor de apoio e passou a ser parte estratégica da gestão pública.

Participar desse ambiente, levando a realidade de um município como São Ludgero, também é uma forma de mostrar que cidades menores estão inseridas nesse debate. Que enfrentam desafios reais, mas também buscam evoluir. O que fica desse momento No fim, a comunicação pública é um processo em construção constante.

Não existe cenário ideal. Existem contextos — e a forma como se escolhe lidar com eles.

Representar o município em um evento como esse, especialmente em um momento onde o tema comunicação se torna ainda mais sensível, não é apenas uma oportunidade profissional. É uma responsabilidade. Porque, no fim, comunicar não é apenas falar. É saber quando falar, como falar — e entender o peso que isso carrega.

Misael Elias

Entrelinhas do Vale

É comunicador, diretor-geral de Comunicação da Prefeitura de São Ludgero e vice-coordenador da Câmara Técnica de Comunicação da Amurel. Palestrante e colunista regional, aborda gestão pública, cotidiano regional e a importância de uma comunicação clara e eficiente.

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