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A geleia partidária catarinense

Por Cláudio Prisco Paraíso
08/05/2026 - 08h48

Quatro personagens centrais da política catarinense, protagonistas destacados nas eleições de 2018, voltam ao centro do tabuleiro oito anos depois. Mas agora em posições completamente distintas sob o ponto de vista ideológico, programático, partidário e eleitoral. O cenário desenhado para 2026 em Santa Catarina expõe, de forma cristalina, a impressionante fluidez — ou fragilidade — das alianças políticas brasileiras. Estamos falando de Jorginho Mello, Esperidião Amin, João Rodrigues e Gelson Merisio.

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Os quatro ajudam a explicar, na prática, por que o eleitor brasileiro está cada vez mais distante dos partidos e mais conectado exclusivamente às figuras individuais dos candidatos. O sistema político nacional virou uma espécie de “geleia geral” partidária, onde adversários históricos se aproximam, aliados antigos se enfrentam e campos ideológicos antes inconciliáveis passam a conviver na mesma composição.

O quarteto de 2018

Na eleição de 2018, Esperidião Amin disputou o Senado dobrando com Raimundo Colombo. Gelson Merisio era o candidato a governador daquela coligação, tendo João Paulo Kleinübing como vice. Amin acabou sendo o único eleito daquele grupo.

Com o MDB

Na mesma eleição, Jorginho Mello disputou o Senado numa composição liderada pelo MDB, que tinha Mauro Mariani como candidato ao governo e Napoleão Bernardes, então no PSDB, como vice. Hoje, Napoleão está no PSD como deputado estadual e Mariani diretor do BRDE , indicado por Jorginho, assim como Kleinubing, que se desincompatibilizou em abril.

Naquela chapa ao Senado estavam Jorginho Mello e o tucano Paulo Bauer, que buscava a reeleição. Assim como Amin, Jorginho elegeu-se.

Pelo caminho

Mauro Mariani foi derrotado. Gelson Merisio chegou ao segundo turno, mas acabou superado pelo então azarão Carlos Moisés da Silva, impulsionado pela onda Bolsonaro que varreu o país em 2018. O ilustre desconhecido foi guindado ao comando do estado.

João Rodrigues e o PSD

Também em 2018, João Rodrigues se elegeu deputado federal justamente na chapa proporcional liderada por Gelson Merisio no PSD. Ou seja: Merisio, Amin e João Rodrigues estavam todos no mesmo campo político. Enquanto isso, Jorginho Mello alinhado ao MDB e ao PSDB naquela disputa.

Outra realidade

O quadro atual mostra uma reviravolta completa. João Rodrigues, que depois venceria as eleições para prefeito de Chapecó em 2020 e seria reeleito em 2024, hoje é pré-candidato ao governo do Estado pelo PSD — exatamente o partido pelo qual Gelson Merisio disputou o governo em 2018. Mas agora os dois estão em lados opostos.

Canhotou

Décio Lima foi candidato ao governo em 2018 em chapa pura do PT. Já em 2022, contou com o apoio de toda a esquerda catarinense. E quem coordenou aquela campanha? Gelson Merisio.

Agora, em 2026, Merisio surge como candidato ao governo pelo PSB, sustentado justamente pelo bloco de esquerda, incluindo o PT e seus aliados históricos.

Muita convicção

Ou seja: o mesmo Gelson Merisio que liderava o PSD em 2018, ao lado de Amin e João Rodrigues, hoje está alinhado ao campo político da esquerda catarinense. João Rodrigues, a seu turno, virou adversário direto de Merisio.

Reposicionamento de Amin

Jorginho Mello, eleito governador em 2022, busca agora a reeleição. Esperidião Amin, inicialmente alinhado ao projeto de Jorginho, acabou ficando fora da composição majoritária governista e se aproximou politicamente de João Rodrigues.

Manda brasa

Outro movimento emblemático envolve justamente o MDB. O mesmo MDB com quem Jorginho esteve aliado em 2018 agora também se aproxima de João Rodrigues. A razão é essencialmente política e eleitoral.

Cacife eleitoral

Jorginho Mello optou por trazer Adriano Silva, ex-prefeito de Joinville pelo Novo, para a vice. E entregou a vaga ao Senado para Carlos Bolsonaro, indicado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro.

Com isso, lideranças que ficaram fora da composição governista, como Esperidião Amin e Carlos Chiodini, acabaram migrando para a órbita política de João Rodrigues.

Labirinto partidário

Esse emaranhado de alianças, rupturas e reposicionamentos deixa evidente a enorme dificuldade do eleitor em compreender o cenário político brasileiro.

O cidadão que votou em Gelson Merisio pelo PSD em 2018 agora o verá disputando a eleição pelo PSB, apoiado pela esquerda e pelo PT, que enfrenta resistência histórica em Santa Catarina.

Pois é

Já o eleitor pessedista tradicional tende naturalmente a acompanhar João Rodrigues, hoje adversário direto de Merisio. O MDB, que esteve com Jorginho Mello, aproxima-se de João Rodrigues. Esperidião Amin, que orbitava o projeto governista, desloca-se para outro campo. E tudo isso acontece em um intervalo de apenas oito anos.

Reforma urgente

O quadro catarinense apenas reproduz um problema estrutural nacional. O Brasil necessita, de forma urgente, de uma ampla e verdadeira reforma política, partidária e eleitoral.

As mudanças implementadas nas últimas décadas produziram avanços pontuais — como cláusula de barreira, restrições às coligações proporcionais e mecanismos de redução da pulverização partidária. Mas, no essencial, o sistema continua disfuncional. E absolutamente hermético.

Gambiarras

Na prática, grande parte das reformas feitas até aqui não passou de remendos, gambiarras legislativas ou acomodações construídas para atender interesses circunstanciais dos grupos dominantes. Persistem mecanismos que contaminam o ambiente político-eleitoral, começando pela reeleição, um dos maiores equívocos institucionais da República contemporânea.

Abecedário

O Brasil continua convivendo com um número excessivo de partidos, muitos deles sem qualquer identidade programática clara. São verdadeiras siglas de aluguel, criadas para negociatas de toda sorte. O resultado é um sistema onde o eleitor já não vota mais em projetos partidários, ideológicos ou programáticos. Vota apenas em pessoas.

Fulanização do voto

E, quando isso acontece, o sistema representativo perde coerência, previsibilidade e consistência democrática. Sem uma profunda reorganização partidária — reduzindo legendas e estabelecendo identidades ideológicas minimamente sólidas — o país continuará refém desse modelo confuso, personalista e contraditório. O caso catarinense é apenas mais uma demonstração explícita dessa realidade.

Farsa Oficial

Por Cláudio Prisco Paraíso
06/05/2026 - 08h37

O pronunciamento de Luiz Inácio Lula da Silva na véspera do Dia do Trabalho soou menos como comunicação institucional e mais como peça de ficção política. Coisas de uma belíssima cara de pau, de alguém que mente de forma contumaz.

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Embalado por uma retórica que busca empatia com o brasileiro endividado até o pescoço, o conteúdo escancara contradições, omissões e uma narrativa que não resiste a um exame mais rigoroso dos fatos — sobretudo quando confrontada com o histórico recente do próprio governo e do partido que o sustenta, o Partido dos Trabalhadores.

Pode até enganar os mais desavisados, mas qualquer pessoa minimamente informada percebe a farsa combinada entre Planalto e os grandes bancos, que voltaram a ter os maiores lucros de sua história sob Lula III.

Desenrola

O programa anunciado como solução para o endividamento da população carrega, na essência, um paradoxo evidente: pretende aliviar o trabalhador utilizando recursos oriundos do FAT (Fundo de Amparo ao Trabalhador). Em termos práticos, o governo vende como benefício aquilo que, na origem, pertence ao próprio beneficiário, ou seja, aos trabalhadores deste país.

Lorota

Não se trata de política pública inovadora, mas de rearranjo contábil com forte apelo publicitário. E o “melhor”: para usar seu próprio dinheiro, o trabalhador vai pagar juros para a banca. Uma maravilha.

Bets

Ao atribuir parte do endividamento às apostas esportivas, Lula desloca o foco do problema. As chamadas “bets” não apenas permaneceram sob sua gestão como foram ampliadas em ambiente de regulamentação frouxa. Transferir a responsabilidade para governos anteriores ignora deliberadamente a continuidade — e, em certa medida, o estímulo — dado ao setor no atual mandato.

Economia

O pano de fundo da míngua generalizada é uma política econômica marcada por aumento de carga tributária e pressão sobre o setor produtivo — em muitos casos, perseguição e ódio contra quem empreende, gera empregos e banca essa farra toda. O empresariado, responsável direto pela geração de empregos, opera sob ambiente hostil, enquanto o Estado amplia seu protagonismo. O resultado é previsível: menor dinamismo econômico e maior dependência de programas estatais. Tudo em troca de votos para manutenção do poder.

Sistema

A tentativa da deidade vermelha de se posicionar como “candidato contra o sistema” não se sustenta. Nos últimos 24 anos, o PT ocupou a Presidência por 18, somando os mandatos de Lula e de Dilma Rousseff. Trata-se de três quartos do período recente da República. Hoje vivemos num país absolutamente aparelhado pelo PT, processo que começou de forma estruturada ainda em 2003, sob coordenação de Zé Dirceu. E só ampliou seus tentáculos de lá para cá.

STF

A reabilitação política de Lula passou diretamente por decisões do Supremo Tribunal Federal, com protagonismo de figuras como Alexandre de Moraes. O mesmo sistema que o retirou da prisão viabilizou seu retorno ao Palácio do Planalto. A retórica de outsider, portanto, não encontra respaldo na realidade institucional. Lula é a face mais visível, e desprezível, deste sistema apodrecido, corrupto e vil.

Corrupção

Os escândalos que marcaram as últimas décadas — do Mensalão à Operação Lava Jato — consolidaram, no imaginário coletivo, uma associação direta entre o PT e práticas de corrupção, tendo Lula como grande comandante em chefe da tunga sem limites. Episódios recentes — e já são vários — apenas reforçam essa percepção, alimentando um ambiente de desconfiança e indignação generalizada.

Eleição

Diante desse conjunto, o cenário eleitoral se desenha sob forte desgaste de imagem. A dificuldade deste sujeito de sustentar a mentirada toda diante de um eleitorado mais atento pode se tornar o principal obstáculo. A avaliação corrente em segmentos amplos da sociedade é de que a rejeição supera, com folga, a capacidade de mobilização do lulopetismo, carcomido, embolorado por ideias do século XIX.

Mentira de terno

Em síntese, o discurso oficial vociferado por Lula tenta reorganizar a realidade pela via da narrativa, que nada mais é do que a mentira de terno. Mas, quando confrontado com dados, histórico e coerência institucional, revela-se frágil. A política, especialmente em tempos de hiperexposição, cobra consistência — e é exatamente aí que reside o principal ponto de vulnerabilidade do atual governo.

Cláudio Prisco Paraíso

Blog do Prisco

Começou no jornalismo em 1980, no jornal O Estado. Atuou em diversos veículos de comunicação: repórter no Jornal de Santa Catarina, colunista no Jornal A Notícia e comentarista na RBS TV, TV RECORD, Itapema FM, CBN Diário e Radio Eldorado. Comenta diariamente em algumas rádios e publica sua coluna do dia em alguns jornais do Estado. Estreou em março de 2015, nas redes sociais e está no ar com o Blog do Prisco.

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