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Tradição e renovação

Por Cláudio Prisco Paraíso
02/08/2023 - 11h15

A polarização política em Santa Catarina, que durou décadas, sempre colocou como antagonistas o MDB e a Arena. Ainda num período em que as eleições não estavam restabelecidas, a rivalidade entre os dois grupos era ferrenha. Nos estados, o voto direto voltou a partir de 1982. Para a Presidência da República, o restabelecimento da democracia só ocorreu em 1989.

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Durante mais de 30 anos, o MDB constituiu-se na maior e na principal sigla catarinense. Sempre elegendo o maior número de prefeitos. A legenda já administrou a máquina estadual por quatro mandatos. Três emedebistas foram eleitos para o cargo máximo de SC. Pedro Ivo Campos abriu a fila. Ganhou as eleições de 1986. Paulo Afonso Vieira venceu o pleito de 1994. Luiz Henrique da Silveira chegou lá em 2002 e foi reeleito em 2006.

Com um detalhe. LHS renunciou ao final do primeiro e do segundo mandatos. Na sua primeira gestão, ele deixou o cargo para disputar contra Esperidião Amin sem a caneta na mão.

O ex-governador cumpriu a palavra. Ele havia feito um desafio ao hoje senador Esperidião Amin para que deixasse o comando estadual durante o pleito daquele ano. Amin permaneceu na proa catarinense durante a disputa eleitoral de 2002. Em 2006, a saída de Luiz Henrique abriu caminho para o mandato-tampão de Eduardo Moreira, seu correligionário.

Tucanos

No segundo mandato, LHS trouxe o senador Leonel Pavan para ser seu vice. Com isso, outro emedebista, Neuto de Conto, assumiu no Senado por quatro anos.

Bônus

Pavan também ganhou um mandato-tampão. Luiz Henrique renunciou em 2010 para concorrer ao Senado. Conquistou a cadeira na Câmara Alta e ainda levou junto com ele Paulo Bauer, que tinha uma reeleição a federal ameaçada!

Fila anda

Quando LHS foi para o Senado, ele empurrou Raimundo Colombo, que era senador, para disputar o governo. Outro emedebista assumiu em Brasília no lugar de Colombo: Casildo Maldaner, que já havia sido senador eleito em 1994.

Força

Resgatamos essas histórias para ilustrar a força histórica do MDB no estado. O partido chegou a ter 120, até 130 dos 295 prefeitos. Hoje administra quase 100 prefeituras, em um período de baixa. A legenda começou a perder consistência com a partida de LHS e de Casildo Maldaner.

Caroneiro

Eduardo Moreira nunca teve votos. Paulo Afonso Vieira foi perdendo força ao longo do tempo. Sua derrocada iniciou com o episódio das letras, na parte final da administração dele à frente do estado. Elegeu-se depois deputado federal por uma única oportunidade e ficou nisso.

Rumo

O MDB perdeu a bússola. O maior responsável pela queda partidária foi Eduardo Moreira. Ele foi três vezes vice-governador, cumpriu dois mandatos-tampões como governador e presidiu a sigla por 10 anos.

História

Em 2018, registre-se, Mauro Marinani não conseguiu levar o MDB para o segundo turno da eleição estadual pela primeira vez na história. Houve a onda Bolsonaro, é bem verdade, mas a desorganização e a falta de lideranças novas potencializaram o desastre emedebistas naquele pleito.

Repeteco

Só que no ano passado, o resultado foi pior ainda. O MDB sequer lançou candidato a governador. Antídio Lunelli se apresentou, fez pré-campanha e disputou a convenção. Foi derrotado por Udo Döhler, que foi vice de Moisés da Silva. O ex-governador rejeitou o nome de Antídio Lunelli. O desfecho acabou sendo favorável ao jaraguaense.

Mandato

Se Lunelli tivesse sido companheiro de chapa de Moisés, hoje ele não estaria na Alesc, cadeira que conquistou como o terceiro mais votado de Santa Catarina em 2022. O MDB precisa achar um rumo, um norte, se reestruturar e se reoxigenar.

Renovação

Por isso, na Capital, o nome de Dário Berger merece restrições. Ele foi prefeito de Florianópolis pelo MDB e pelo PSDB. Nunca atendeu ninguém. Seu compromisso era com o grupinho político de São José, cidade que ele também administrou em duas oportunidades.

Cobalchini

Por essas e por outras, todo jogo vem sendo jogado para fortalecer o presidente da Câmara de Vereadores, João Cobalchini. Ele pode vir a ser, inclusive, uma opção para compor de vice de Topázio Neto (PSD) dentro da estratégia de dar um chega pra lá em Dário Berger.

Curral

Mesmo que o ex-senador volte ao MDB, sobraria para ele a eleição em São José. Topázio começa a abrir espaços no governo ao MDB e pode estar vislumbrando um entendimento com o União Brasil, de Gean Loureiro, ali adiante.

Todos juntos

Como o UB e Gean já estão fechados com Topázio, João Cobalchini de vice poderia não só ser uma cartada para impedir a volta de Dário à Capital pelo MDB como também para renovar um dos mais tradicionais partidos de Santa Catarina. O MDB foi o primeiro a conquistar a prefeitura da Capital no retorno das eleições diretas. Edison Andrino venceu a corrida eleitoral em 1985!
 

Bolsonaro, Michelle, Jorginho e as eleições de 2024 e de 2026

Por Cláudio Prisco Paraíso
01/08/2023 - 08h00
Bolsonaro, Michelle e Jorginho durante evento do PL mulher em SC - Foto: Tiago Ghizoni

A passagem de Jair e Michelle Bolsonaro por Santa Catarina confirmou a expectativa, a indiscutível popularidade do casal pelos lados da província. Especialmente a do ex-presidente.

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Isso foi possível de ser verificado nas suas aparições públicas em São José, em Florinanópolis; ou em Ituporanga, no Alto Vale do Itajaí, região essencialmente bolsonarista.

Michelle demonstrou muita desenvoltura verbal, carisma e vem moblizando, país afora, um segmento que fez falta para a reeleição de Bosonaro: o voto feminino, notadamente os sufrágios das mulheres jovens.

A missão dela é a de justamente procurar consolidar essa situação. Não de olho em votos para o marido, mas para o partido, para o projeto conservador de 2026.

Mesmo que não tivesse tido os direitos políticos cassados, Bolsonaro, na avaliação do colunista, não seria mais nome para o próximo pleito. Os números eleitorais apresentados pelas urnas eletrônicas viraram essa página.

Opção

A fila anda. Michelle não seria nome para presidência já em 2026 até por sua inexperiência. Poderia, no entanto,a compor uma chapa liderada por Tarício de Freitas (SP) ou Romeu Zema (MG).

Café com leite

Ou eventualmente ela poderá disputar o Senado - muito provavelmente pelo Distrito Federal - e os dois governadores formarem uma chapa presidencial.

Musculatura

A realidade é que Bolsonaro continua muito forte em SC. A agenda evidenciou, caracterizou, ainda, que a voz política do ex-presidnete no estado é a de Jorginho Mello. E fim de papo.

Laços

Não se hospeda em casa alguém que não seja um amigo, alguém que não seja íntimo. Foi o que ocorreu. O casal pernoitou no Palácio Residencial a convite do governador.

Pensão completa

Os Bolsonaros tomaram café, almoçaram e jantaram na Casa d'Agronômica. Não se desgrudaram do anfitrião. Era perceptível a proximidade deles, a ponto de Bolsonaro sempre estar com a mão no ombro de Jorginho.

Amigos, amigos

O ex-presidente tem outras ligações políticas no Estado, especialmente nas figuras do senador Esperdião Amin, do PP, e na do ex-deputado Rogério Peninha Mendonça, do MDB.

Apreço

Bolsonaro tem estima, apreço e quer muito bem os dois. Eles sempre tricotaram ao longo das carreiras políticas.

Nome

Jair Bolsonaro estará alinhado a Jorginho Mello quando o assunto são as próximas duas eleições. Não apenas pelo fato dele ser governador e correligionário, mas pela postura do catarinense, que distribui provas inequívocas de sua lealdade.

Municipalismo

O fato novo será a efetiva participação de Jair Bolsonaro no pleito municipal do ano que vem, algo que não ocorreu em 2020. Ele era presidente, não tinha tempo para participar do pleito municipal. Santa Catarina terá atenção especial do líder conservador.

Conta

Até porque ele deve muito politicamente aos catarinenses. O ex-presidente nunca baixou de 70% dos votos por aqui.

Relevante

Santa Catarina é o nono colégio eleitoral do país. É o calcanhar de Aquiles para Lula da Silva, que não por acaso colocou seu amigo, compadre e correligionário Décio Lima na proa do Sebrae nacional. O ex-prefeito de Blumenau comanda um orçamento bilionário para tentar mudar a situação aqui.

Missão quase impossível

Não será fácil. É um grande desafio para Décio e o PT ganharem musculatura eleitoral além dos segmentos cativos a seu projeto de poder. Já Jorginho poderá fortalecer muito o seu PL, tendo o líder da direita nacional como cabo eleitoral.

Margem de segurança

O PL precisa aumentar o número de prefeitos em Santa Catarina. É verdade que as eleições de Moisés e Jorginho, nas duas ondas Bolsonaro, não precisaram de prefeitos para que os dois chegassem ao governo. É evidente, contudo, que quanto mais prefeituras o PL fizer, mais bem encaminhada estará a recondução do atual governador nas próximas eleições majoritárias.

Ônus

Por outro lado, a proximidade entre Jorginho e Bolsonaro colocou o governador na mira da mídia canhota e vassala nacional. Não se pode desconsiderar, ainda, que o governo atual poderá fechar as torneiras de transferência de recursos da União para Santa Catarina.

Cláudio Prisco Paraíso

Blog do Prisco

Começou no jornalismo em 1980, no jornal O Estado. Atuou em diversos veículos de comunicação: repórter no Jornal de Santa Catarina, colunista no Jornal A Notícia e comentarista na RBS TV, TV RECORD, Itapema FM, CBN Diário e Radio Eldorado. Comenta diariamente em algumas rádios e publica sua coluna do dia em alguns jornais do Estado. Estreou em março de 2015, nas redes sociais e está no ar com o Blog do Prisco.

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