O grande movimento político do fim de semana em Santa Catarina ocorreu em Jaraguá do Sul, com a formalização da pré-candidatura de Antídio Lunelli ao Senado na chapa liderada por João Rodrigues. O evento reuniu justamente o quarteto que hoje tenta se consolidar como alternativa de centro-direita ao projeto de reeleição do governador Jorginho Mello: João Rodrigues, Antídio Lunelli, Esperidião Amin e Carlos Chiodini.
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É um agrupamento político de peso. Não há dúvida. Todos possuem densidade partidária, experiência administrativa ou trajetória institucional relevante. Mas também é uma composição que carrega desafios evidentes diante de um projeto governista já consolidado política e eleitoralmente.
Curiosamente, os nomes hoje alinhados com João Rodrigues já estiveram no radar de Jorginho Mello. Durante praticamente os dois primeiros anos e meio de mandato, o desenho era outro: Carol De Toni ao Senado, Esperidião Amin na segunda vaga e Carlos Chiodini representando o MDB como candidato a vice-governador.
Goela abaixo
Foi então que entrou em cena o ex-presidente Jair Bolsonaro, que impôs o nome do filho, Carlos Bolsonaro, para disputar o Senado por Santa Catarina.
Outro movimento que mudou totalmente o tabuleiro surgiu diante das dificuldades de João Rodrigues em consolidar sua pré-candidatura ao governo. O próprio PSD estimulou o nome do então prefeito reeleito de Joinville, Adriano Silva, como alternativa ao Executivo estadual. Se ele aceitasse, Rodrigues concorreria à Câmara Alta.
Agilidade
Percebendo a movimentação, Jorginho Mello entrou rapidamente no circuito. Convenceu Adriano Silva a ser seu vice. O ex-prefeito de Joinville aceitou, discursando em favor da união da direita no estado.
Reviravolta
O jogo havia mudado completamente. Nesse processo, o governador acabou perdendo Esperidião Amin e também Carlos Chiodini.
Mais adiante, já dentro dessa nova configuração, o governador buscou Antídio Lunelli formalmente para ser primeiro suplente de Carol De Toni ao Senado. O convite sensibilizou o ex-prefeito de Jaraguá do Sul, que chegou a sinalizar apoio ao projeto de reeleição do governador.
Direção oposta
Mas os apelos internos do MDB prevaleceram. Antídio acabou aceitando disputar efetivamente o Senado na aliança liderada pelo PSD. A chapa de João Rodrigues é consistente. Politicamente, partidariamente e institucionalmente. Ainda que apresente desequilíbrios regionais.
Geografia da urna
João é do Oeste. Amin tem presença estadual consolidada há décadas. Já Antídio Lunelli e Carlos Chiodini possuem raízes políticas em Jaraguá do Sul — embora Chiodini hoje esteja politicamente vinculado também a Itajaí. Foi candidato a prefeito em 2024, ficando na terceira posição.
Peso
Mesmo assim, trata-se de um grupo com forte representatividade partidária. Agora, eleitoralmente, o cenário exige ponderações mais cuidadosas. João Rodrigues foi deputado estadual, federal e quatro vezes prefeito de Chapecó. Tem trajetória robusta, mas jamais disputou uma eleição majoritária estadual. É uma aposta eleitoral em escala catarinense.
Consolidado
Esperidião Amin dispensa apresentações. Continua sendo o político mais longevo e experiente em atividade em Santa Catarina.
Vida privada
Já Antídio Lunelli carrega uma trajetória pessoal e empresarial extremamente respeitável. Costuma lembrar que veio da roça, foi empregado, tornou-se empresário vitorioso, elegeu-se duas vezes prefeito de Jaraguá do Sul e conquistou a terceira maior votação para deputado estadual em Santa Catarina, sendo o mais votado do MDB.
Tentativa
Lunelli tentou disputar o governo em 2022, acabou barrado internamente e agora retorna ao centro do jogo político como candidato ao Senado.
Mas também é uma aposta majoritária.
Incógnita
Carlos Chiodini, por sua vez, possui trajetória parlamentar consolidada. Foi deputado estadual, federal e presidente estadual do MDB. Contudo, sua tentativa de conquistar a Prefeitura de Itajaí em 2024 terminou frustrada.
Ou seja: há densidade política, mas ainda existem interrogações eleitorais relevantes.
Timidez
Do outro lado, a esquerda apresenta um grupo menos competitivo sob o aspecto político-partidário. Gelson Merisio está há oito anos afastado do protagonismo eleitoral. Angela Albino é reconhecidamente qualificada, mas sem grande densidade eleitoral.
Restrições
Afrânio Boppré possui trajetória respeitável em Florianópolis, mas restrita regionalmente. E Décio Lima, embora tenha disputado o governo duas vezes e ido ao segundo turno na eleição passada, jamais conseguiu consolidar musculatura majoritária suficiente para vencer uma eleição estadual.
Fla x Flu
Ainda assim, há um elemento decisivo que pode alterar completamente a lógica catarinense: a verticalização nacional.
Se a eleição presidencial se transformar novamente em um confronto direto entre PT e PL, como tudo indica, a esquerda poderá ganhar competitividade automática em Santa Catarina.
Nomenclatura
Nesse cenário, Gelson Merisio, embora abrigado no PSB, passa a ter uma referência nacional clara com Lula da Silva, enquanto João Rodrigues ainda busca consolidar qual será exatamente sua conexão nacional dentro do campo da direita.
É justamente aí que reside um dos principais desafios da oposição catarinense ao projeto de reeleição de Jorginho Mello.
A confirmação da terceira visita de Lula da Silva a Santa Catarina, desde o início do atual mandato, acaba reforçando uma leitura política cada vez mais evidente: o governo federal continua tratando o estado com absoluto distanciamento institucional e seletividade política.
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O Palácio do Planalto confirmou para a última semana de junho mais uma agenda presidencial em território catarinense. E novamente em Itajaí. Vale refrescar a memória.
A primeira visita de Lula ocorreu em agosto de 2024. Na ocasião, passou rapidamente por Florianópolis para a inauguração do Contorno Viário — aquele que atrasou 12 anos — e, em seguida, seguiu para Itajaí, onde participou do lançamento da Fragata Tamandaré.
Porto seguro
A segunda agenda aconteceu em maio de 2025. Mais uma vez em Itajaí. O presidente foi anunciar a retomada das operações e novos investimentos no porto da cidade.
Agora, no fim deste mês, Lula retorna novamente ao município do Litoral Norte para participar da cerimônia de incorporação de outra fragata da Marinha.
Ou seja: das três visitas presidenciais ao estado, nas três Itajaí esteve no roteiro.
Geografia eleitoral
Administrativamente, evidentemente existe explicação institucional para as agendas envolvendo porto e Marinha. Mas há uma leitura política impossível de ignorar. Itajaí é a terra natal de Décio Lima. É onde reside o amigo pessoal e compadre de Lula da Silva. A família de Décio permanece na cidade. Seus pais residem em Itajaí.
Peixeiro
Décio, aliás, já foi superintendente do porto durante a gestão de Volnei Morastoni, à época prefeito petista no município. Fora Itajaí, Lula restringiu sua presença em Santa Catarina praticamente a Florianópolis.
Ilha de SC
E Florianópolis, politicamente, sempre foi um ponto fora da curva dentro do mapa eleitoral catarinense. Capital administrativa, fortemente vinculada ao funcionalismo público, às universidades e aos setores mais simpáticos à esquerda, é uma das raras cidades do estado onde Lula e os candidatos petistas historicamente apresentam desempenho eleitoral competitivo.
Ponto esquerdista
Não por acaso, durante toda a campanha presidencial de 2022, antes de ser eleito, Lula fez apenas um ato eleitoral em Santa Catarina. E foi justamente em Florianópolis.
A pergunta inevitável é: para Lula da Silva, Santa Catarina se resume a Florianópolis e Itajaí?
Estado invisível
Cidades de enorme relevância econômica e eleitoral seguem completamente fora do radar presidencial. Joinville, maior município catarinense, motor industrial do estado e símbolo da pujança econômica catarinense, jamais entrou na rota presidencial petista.
Blumenau, terceira maior cidade e principal polo do Médio Vale, além de uma das regiões mais bolsonaristas do Brasil, igualmente segue ignorada.
Tudo roteirizado
Coincidência? Difícil acreditar.
Até porque o próprio Décio Lima construiu sua carreira política em Blumenau. Foi vereador e depois prefeito por dois mandatos.
Sua esposa, Ana Paula Lima, atual deputada federal, disputou duas vezes a prefeitura blumenauense e bateu na trave em ambas.
Chá de sumiço
Desde então, o PT praticamente desapareceu eleitoralmente da cidade. Aliás, o legado político da gestão de Décio Lima em Blumenau continua produzindo efeitos até hoje. O partido nunca mais conseguiu eleger prefeito no município e passou a enfrentar enorme dificuldade até para formar quadros proporcionais competitivos.
Pinus elliottii
Tanto que, além do próprio Décio e de Ana Paula, o PT nunca mais conseguiu consolidar novas lideranças relevantes na cidade.
Hoje, Santa Catarina já vive a terceira legislatura consecutiva com quatro deputados estaduais petistas — todos do Oeste catarinense.
Vácuo
Na Câmara Federal, Ana Paula Lima só voltou a conquistar mandato porque o PT catarinense tinha apenas Pedro Uczai como representante, já em seu terceiro mandato consecutivo, igualmente oriundo do Oeste.
Porto, JBS e Merisio
Quando se fala em investimentos federais, o discurso oficial também começa a perder força diante da realidade. Anunciam-se bilhões para Santa Catarina, mas quais investimentos efetivamente estruturantes e públicos foram realizados pelo governo federal?
A retomada do Porto de Itajaí, por exemplo, ocorre essencialmente pela via da iniciativa privada.
Empresa monopolista
Quem assumiu o controle da estrutura portuária foi a JBS. E aqui existe outro componente político relevante. O ex-presidente da Assembleia Legislativa, Gelson Merisio, apontado como nome da esquerda para a disputa ao governo catarinense em 2026 pelo PSB, integra os quadros da empresa há vários anos.
Não tem almoço grátis
O simbolismo político é inevitável. Além do porto e das agendas envolvendo as fragatas da Marinha, sobra o quê?
A inauguração do Contorno Viário da Grande Florianópolis, obra executada com recursos privados — o seu, o meu, o nosso dinheiro arrecadado pelos pedágios.
O estado paga
A grande verdade é que Santa Catarina segue vivendo exatamente o mesmo cenário enfrentado durante o governo Jair Bolsonaro. Mudou o presidente. Mudou o discurso ideológico. Mas o tratamento dispensado ao estado permanece rigorosamente igual.
Santa Catarina continua olimpicamente ignorada por Brasília.
Modelo catarinense
É o estado que funciona. O estado organizado. O estado que faz o dever de casa. O estado padrão da federação brasileira. E justamente por isso acaba negligenciado pela União.
Santa Catarina segue recebendo menos de 10% em investimentos federais daquilo que arrecada e envia a Brasília em tributos.
Abismo
Além da evidente distância ideológica entre o eleitorado catarinense e o lulismo, existe também uma lógica histórica de concentração política dos investimentos federais em regiões mais dependentes da União.
Na prática, Santa Catarina acaba sendo punida por sua eficiência econômica, por sua organização fiscal e por sua capacidade produtiva. Premia-se quem não faz o dever de casa.
Nada mais antipedagógico.
Blog do Prisco
Começou no jornalismo em 1980, no jornal O Estado. Atuou em diversos veículos de comunicação: repórter no Jornal de Santa Catarina, colunista no Jornal A Notícia e comentarista na RBS TV, TV RECORD, Itapema FM, CBN Diário e Radio Eldorado. Comenta diariamente em algumas rádios e publica sua coluna do dia em alguns jornais do Estado. Estreou em março de 2015, nas redes sociais e está no ar com o Blog do Prisco.