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Saída de Chiodini expõe fissuras internas e coloca o partido diante de uma encruzilhada histórica

Por Cláudio Prisco Paraíso
29/01/2026 - 08h58

Se há uma característica permanente do MDB de Santa Catarina ao longo das últimas quatro décadas, ela atende pelo nome de divisão interna. O partido sempre foi movido por correntes, lideranças regionais fortes e disputas que, não raro, moldaram os rumos da política estadual.

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Basta lembrar os embates das prévias nos anos 1980, quando o pluripartidarismo foi restabelecido. Jaison Barreto derrotando Pedro Ivo Campos em pré-convenção do “Manda Brasa”. Depois, Pedro Ivo superando Luiz Henrique da Silveira. Mais adiante, outros confrontos entre caciques que se alternaram no comando partidário e na disputa pelo poder estadual. O MDB catarinense nunca foi um bloco monolítico — ao contrário, sempre funcionou como uma federação informal de lideranças.

Nos últimos três anos, porém, o partido vivia uma trégua incomum. A participação no governo Jorginho Mello havia reduzido tensões internas. Havia espaço, cargos, influência e a expectativa — nunca formalizada, mas amplamente difundida — de que o MDB integraria novamente a chapa majoritária em 2026. Essa expectativa ruiu.

A decisão que mudou o ambiente

A escolha do prefeito de Joinville, Adriano Silva (Novo), como candidato a vice-governador na chapa de Jorginho Mello caiu como um balde de água fria no MDB. O partido se viu fora da majoritária antes mesmo de iniciar a negociação final.

O gesto do governador teve efeito político imediato: obrigou o MDB a sair da zona de conforto e a decidir se permanece no governo sem protagonismo ou se busca reconstruir um caminho próprio.

O desembarque — com freio de mão puxado

A reunião do diretório estadual, realizada na segunda-feira, produziu um gesto simbólico forte: o anúncio de desembarque do governo. Mas, na prática, o movimento está longe de ser uniforme.

Quem deixou o cargo foi o presidente estadual da sigla, Carlos Chiodini, até então secretário da Agricultura. A saída era praticamente inevitável, já que ele lidera o partido e precisava dar um sinal político. O restante, porém, não acompanhou no mesmo ritmo.

Os que ficaram

Secretários e indicados ligados ao MDB não compareceram à reunião decisiva. Jerry Comper (Infraestrutura), Cleiton Fossá (Meio Ambiente) e nomes vinculados à bancada estadual permanecem nas funções. A tendência é que sigam, ao menos, até o prazo de desincompatibilização, no fim de março ou início de abril.

Presença do MDB

Além disso, não houve orientação formal para que comissionados entreguem os cargos. Na prática, a máquina administrativa ainda mantém forte presença emedebista. O recado implícito é claro: o MDB institucional desembarca, mas suas engrenagens ainda estão dentro do governo.

O risco da debandada

Esse movimento híbrido cria um problema delicado para Carlos Chiodini. Sem unidade interna, o partido fica vulnerável à janela partidária. Deputados e lideranças regionais podem migrar para siglas mais alinhadas ao projeto de reeleição de Jorginho Mello, preservando seus mandatos e reduzindo ainda mais o tamanho político do MDB. Conduzir esse processo exigirá habilidade cirúrgica da direção estadual.

Conversas paralelas e alianças improváveis

Nos bastidores, as articulações já começaram. Chiodini participou de conversas com João Rodrigues (PSD) e Esperidião Amin (PP). Fala-se também em aproximação com o União Brasil, que integra a federação com o Progressistas.

O problema é histórico: MDB e PP foram adversários centrais em Santa Catarina por décadas. Uma aliança entre ambos pode fazer sentido matemático, mas encontra resistências culturais e regionais profundas.

Nem o PSD parece convicto

A situação se torna ainda mais nebulosa quando se observa o PSD. Parte da cúpula da sigla já chegou a oferecer a cabeça de chapa ao prefeito Adriano Silva, com João Rodrigues migrando para uma candidatura ao Senado.

O gesto revela que nem dentro do próprio partido há consenso sobre a viabilidade do projeto de João Rodrigues ao governo. Se o PSD hesita, por que o MDB apostaria todas as fichas nessa alternativa?

A força gravitacional do favoritismo

Enquanto a oposição tenta se organizar, o governador segue ampliando sua base. A presença de Adriano Silva na chapa não agrega apenas o maior colégio eleitoral do Estado, mas também o simbolismo do empresariado e do discurso liberal.

Porto seguro

Diante disso, cresce entre lideranças emedebistas a avaliação pragmática: mesmo fora da majoritária, pode ser mais seguro permanecer no entorno do poder do que embarcar numa aventura eleitoral incerta.

O MDB diante do espelho

O partido que já governou Santa Catarina e foi protagonista das grandes decisões estaduais agora se vê diante de uma escolha existencial: reconstruir protagonismo por conta própria, correndo riscos, ou aceitar papel secundário numa aliança liderada por quem hoje comanda o jogo. A saída de Chiodini marcou o início formal de um novo ciclo. Mas o MDB ainda não decidiu, de fato, para onde quer ir.

O tabuleiro começou cedo

Por Cláudio Prisco Paraíso
28/01/2026 - 08h42

Jorginho Mello assumiu o governo do Estado em 1º de janeiro de 2023. Mal havia esquentado a cadeira e, já no segundo semestre daquele mesmo ano, o prefeito de Chapecó, João Rodrigues, começou a se insinuar como pré-candidato ao governo em 2026.

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Àquela altura, João Rodrigues havia sido sondado pelo então presidente Jair Bolsonaro, entre março e abril, para se filiar ao PL e disputar o Senado na chapa liderada por Jorginho Mello. Mas o prefeito acreditou que Jorginho iria trocar os pés pelas mãos e quem tinha reais condições de disputar — e vencer — o governo em 2026 seria ele próprio. Não foi o que se viu depois.

Patinando

Já no início de 2024, João Rodrigues passou a discursar claramente como pré-candidato. Em meio à campanha municipal, com a reeleição em Chapecó praticamente assegurada, percorreu diversos municípios do Estado pedindo votos para companheiros do PSD.

Desempenho

No chamado Grande Oeste — cerca de cem municípios, tendo Chapecó como principal polo — o resultado foi pífio para o partido. O PSD venceu apenas em Chapecó. Nos demais centros relevantes da região, como Xaxim, Xanxerê, Joaçaba, Concórdia, Caçador, São Miguel do Oeste e Campos Novos, não elegeu prefeitos.

Ainda assim, João Rodrigues seguiu se apresentando como o único adversário efetivo de Jorginho Mello. Mas a pré-candidatura não decolou. Faltou densidade política, alianças e respaldo estadual.

A esquerda sem rumo

Do outro lado do espectro, a esquerda demorou a se organizar. Décio Lima nunca confirmou uma terceira candidatura consecutiva ao governo, e nem o PT nem seus aliados dispunham de um nome competitivo até então.

Quem?

Somente a partir do segundo semestre de 2025 começou a circular, ainda timidamente, o nome de Adriano Silva.

Adriano entra no radar

Quando Adriano Silva apareceu em pesquisas com quase dois dígitos, acendeu-se o sinal amarelo. Prefeito reeleito de Joinville com quase 80% dos votos, no maior colégio eleitoral do Estado, Adriano carrega um histórico simbólico: Joinville já elegeu dois governadores — Pedro Ivo Campos e Luiz Henrique da Silveira, este último com dois mandatos. Hoje, inclusive, a viúva de Luiz Henrique (Ivete) ocupa uma cadeira no Senado, como suplente de Jorginho Mello. Havia, portanto, viabilidade política real.

O movimento do PSD

Foi nesse contexto que Jorge Bornhausen e Júlio Garcia concluíram que João Rodrigues não iria a lugar algum. A pré-candidatura estava patinando, sem musculatura para sair do chão. Era preciso buscar uma alternativa.

Aposta

O plano foi direto: convidar Adriano Silva para ser o candidato ao governo, com o apoio do PSD. A João Rodrigues, restariam duas opções — vice na chapa ou uma candidatura ao Senado.

Jorginho reage rápido

A movimentação foi explícita. O presidente da Assembleia Legislativa foi pessoalmente à casa do pai de Adriano Silva, em Joinville, para formalizar o convite. O gesto acelerou a reação do governo. Sem pestanejar, Jorginho Mello entrou em cena. O desfecho foi quase que imediato: Adriano Silva aceitou ser vice na chapa de Jorginho, já sinalizando que disputará o Senado em 2030. Na prática, Adriano assumiria o governo e se tornaria candidato natural à reeleição.

A escolha óbvia

Adriano avaliou o cenário e fez a conta política. Ser vice de um governador bem avaliado, administrativamente sólido, politicamente articulado, com apoio de Jair Bolsonaro e da maioria dos partidos de direita em Santa Catarina, oferecia perspectivas muito mais favoráveis do que liderar uma chapa isolada do PSD em 2026. Foi uma decisão pragmática — e previsível.

O isolamento de João Rodrigues

O movimento expôs um problema central: o PSD não enxerga envergadura política em João Rodrigues. E os próprios gestos do prefeito ajudaram a consolidar essa percepção. Quando o MDB estava fechado como vice de Jorginho, João atacou o partido. Agora, mesmo podendo ser aliado, descartou publicamente qualquer composição. Disse, sem rodeios, que quem votou em 80% das matérias do governo Lula (Carlos Chiodini) não entra na sua chapa — ignorando o fato de tratar-se do presidente estadual do MDB e vice-presidente nacional do partido. Fechou portas. Todas.

Voo de galinha

Agora, Adriano Silva também “não presta” aos olhos de João Rodrigues, apenas porque se alinhou com Jorginho. O discurso passou a ser de ataque permanente. O resultado é claro: trata-se de uma liderança que articula mal, constrói pouco e se isola rapidamente. Não apresenta tamanho para concorrer ao governo e nem conta com capacidade de costura para um voo mais audacioso.

No xadrez pré-eleitoral catarinense, enquanto alguns se movem com estratégia, outros seguem se comportando como uma espécie de biruta de aeroporto. Não bastasse isso, carece de embocadura intelectual e envergadura moral.

Cláudio Prisco Paraíso

Blog do Prisco

Começou no jornalismo em 1980, no jornal O Estado. Atuou em diversos veículos de comunicação: repórter no Jornal de Santa Catarina, colunista no Jornal A Notícia e comentarista na RBS TV, TV RECORD, Itapema FM, CBN Diário e Radio Eldorado. Comenta diariamente em algumas rádios e publica sua coluna do dia em alguns jornais do Estado. Estreou em março de 2015, nas redes sociais e está no ar com o Blog do Prisco.

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