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Fôlego Inesperado

Por Cláudio Prisco Paraíso
22/05/2026 - 08h47

A pré-campanha presidencial de 2026 acaba de produzir um paradoxo político dos mais emblemáticos. A recandidatura de Luiz Inácio Lula da Silva ganhou novo fôlego — não por méritos do governo, tampouco por virtudes estratégicas inéditas do PT, mas pelas trapalhadas produzidas no principal campo adversário.

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E o epicentro desse movimento atende pelo nome de Flávio Bolsonaro. O que parecia uma consolidação gradual do nome escolhido pelo ex-presidente Jair Bolsonaro, seu 01, para liderar o projeto conservador nacional começa a se transformar em problema político, eleitoral e familiar. E dos grandes.

Flávio Bolsonaro entrou efetivamente no tabuleiro presidencial em novembro do ano passado, quando foi ungido pelo pai como presidenciável do grupo bolsonarista. A partir dali, passou a ocupar espaço crescente no debate nacional, ainda que sem o mesmo carisma popular do ex-presidente ou a densidade administrativa de outros nomes da direita.

Tempo certo

Mas havia uma bomba-relógio armada. A visita de Flávio ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro, então em prisão domiciliar e utilizando tornozeleira eletrônica, evidentemente não era desconhecida nos bastidores de Brasília. Muita gente sabia. E talvez isso explique o comportamento quase contemplativo do PT e do Palácio do Planalto diante do crescimento do senador nos últimos meses.

Corda pra se enforcar

Não houve ataques. Não houve enfrentamento direto. Não houve contraofensiva. Agora fica claro que o lulismo apenas aguardava o momento politicamente mais conveniente para deixar o episódio explodir.

Bastidores

Em Brasília, ninguém acredita em coincidências quando temas dessa magnitude emergem de maneira cirúrgica. Supremo Tribunal Federal, Polícia Federal, Procuradoria-Geral da República, governo federal e PT acabam orbitando o mesmo ambiente político-institucional. Ainda que formalmente distintos, frequentemente operam sob interesses convergentes. É o consórcio que manda, comanda e persegue. O vazamento do caso não ocorreu por acaso nem no improviso. Foi cálculo político.

Ingenuidade

O problema central é que Flávio Bolsonaro, sempre tratado dentro da própria família como o mais moderado e ajuizado dos filhos do ex-presidente, acabou cometendo um erro primário de avaliação política. Porque não se trata apenas da aproximação com Daniel Vorcaro. Trata-se da sucessão de imprudências.

Infantilidade

Gravação de mensagens, interlocução inadequada, ausência de filtros e, sobretudo, incapacidade de perceber a dimensão explosiva de um contato com um personagem já profundamente desgastado no sistema financeiro e sob investigação. A alegação de desconhecimento sobre a situação pretérita de Vorcaro soa frágil politicamente. Afinal, tratava-se de um cidadão em prisão domiciliar, usando tornozeleira eletrônica. O simbolismo é devastador.

Família

O episódio também escancara outra questão estrutural do bolsonarismo: o projeto familiar acima do projeto político. A família Bolsonaro trabalhou intensamente para impedir que se consolidasse uma candidatura natural de Tarcísio de Freitas. E não apenas porque governa o maior estado da federação.

Currículo

Tarcísio reúne atributos objetivos que o colocariam em posição altamente competitiva: preparo técnico, agilidade política, desenvoltura pública e experiência administrativa robusta. Primeiro no Ministério da Infraestrutura do governo Bolsonaro e agora à frente do segundo maior orçamento da República. Mas prevaleceu a lógica familiar.

Sobrenome

Não se estruturou um projeto partidário. Nem institucional. Nem ideológico. Estruturou-se um projeto de poder centrado no sobrenome Bolsonaro. Eis o ponto central da crise.

Sem Plano

Com Jair Bolsonaro inelegível para a Presidência, restaram poucas alternativas viáveis dentro do PL. Se Romeu Zema e Ronaldo Caiado não conseguirem tração nacional suficiente, o cenário passa a favorecer enormemente Lula, mesmo com toda a rejeição acumulada pelo governo federal.

Inacreditável

E aqui reside o aspecto mais impressionante do momento político: Lula pode caminhar para uma reeleição mesmo carregando desgaste administrativo, aumento de reprovação e fadiga do próprio eleitorado. Não pela força do lulismo. Mas pela desorganização da oposição.

Alternativas

O PL começa a perceber que talvez precise procurar uma alternativa fora do núcleo familiar. Mas qual? Michelle Bolsonaro enfrentaria resistências internas imediatas, especialmente na convivência política com Flávio e os demais filhos do ex-presidente.

Rogério Marinho possui preparo técnico e qualidade parlamentar reconhecida, mas não demonstra apelo popular nacional.

Desconhecida

O mesmo vale para Tereza Cristina, respeitada politicamente, porém sem densidade eleitoral suficiente para liderar um projeto presidencial competitivo.

Ou seja: o campo conservador hoje não possui uma solução simples.

Reflexos

E Santa Catarina entra diretamente nessa equação. Dois irmãos de Flávio Bolsonaro têm projetos eleitorais no estado: Carlos Bolsonaro aparece como pré-candidato ao Senado, enquanto Jair Renan Bolsonaro surge como nome para a Câmara Federal. Se Flávio continuar sangrando politicamente, os reflexos serão inevitáveis.

Contaminação

Caso permaneça candidato, mas em trajetória descendente, poderá contaminar eleitoralmente o grupo. Caso seja removido da disputa, abre-se outra crise: quem herdará o espólio político e como ficará o alinhamento interno do PL?

Risco

Especialmente em Santa Catarina, onde o bolsonarismo segue extremamente competitivo e influencia diretamente a montagem da chapa majoritária.

Os próximos movimentos definirão não apenas o futuro da direita nacional, mas também parte importante da engenharia eleitoral catarinense para 2026.

Cláudio Prisco Paraíso

Blog do Prisco

Começou no jornalismo em 1980, no jornal O Estado. Atuou em diversos veículos de comunicação: repórter no Jornal de Santa Catarina, colunista no Jornal A Notícia e comentarista na RBS TV, TV RECORD, Itapema FM, CBN Diário e Radio Eldorado. Comenta diariamente em algumas rádios e publica sua coluna do dia em alguns jornais do Estado. Estreou em março de 2015, nas redes sociais e está no ar com o Blog do Prisco.

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