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Flávio surpreendeu. Lula não encontrou a reação de que precisava

Por Cláudio Prisco Paraíso
20/10/2026 - 23h37

O primeiro debate do segundo turno, domingo à noite, na Bandeirantes, recebeu críticas pela escassez de propostas. Faltou aprofundamento? Faltou. Mas não há novidade no enfrentamento político ocupar o centro do palco.

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Historicamente, cada candidato procura explorar as fragilidades do adversário. Debate presidencial não é seminário. É disputa pelo poder, com todas as suas asperezas.

Houve conteúdo

Não cabe dizer que não se discutiu absolutamente nada. Flávio Bolsonaro encontrou espaço em segurança pública, economia, responsabilidade fiscal e endividamento dos microempreendedores. Lula ensaiou uma reação na saúde, seu melhor momento, mas ficou por aí. No confronto direto, o eleitor também observa preparo, equilíbrio e capacidade de responder sob pressão.

Pregação aos convertidos

As manifestações foram dirigidas quase exclusivamente aos convertidos. Cada qual abastecendo seu eleitorado com argumentos, provocações e frases prontas para circular nas redes sociais. Faltou uma abordagem capaz de arrancar o indeciso de sua posição. O confronto produziu munição para as militâncias. Produziu bem menos razões novas para quem ainda não escolheu.

A surpresa foi Flávio

Na estreia em um debate presidencial, Flávio mostrou uma desenvoltura que impressionou. Seguro, tranquilo, articulado, preparado e treinado. Não se apequenou diante de um presidente que disputa o Planalto pela sétima vez. Tampouco deixou que a experiência do adversário comandasse o encontro. O estreante entrou para disputar a condução do debate. E conseguiu fazê-lo em momentos importantes, sobretudo nos primeiros blocos.

O veterano travou

Lula também surpreendeu, mas pela dificuldade de concatenar respostas e organizar algumas abordagens. Apresentou-se travado, irritadiço e, em determinados momentos, colérico. Desde a fundação do PT, em 1980, são 46 anos de atividade partidária. Mais tempo do que os 45 anos de vida de Flávio. Experiência não lhe falta. Faltou transformar essa bagagem em superioridade diante das câmeras. O veterano não conseguiu enquadrar o estreante.

A fama não resolve

Pode ter pesado a autossuficiência. A velha fama de encantador de serpentes não substitui preparação. Muito menos garante domínio sobre um adversário que chega sabendo o que pretende dizer. Há políticos de perfil caudilhesco que se acostumam ao aplauso e confundem trajetória com desempenho assegurado. Não basta invocar o passado. É preciso responder no presente. Lula esteve longe da desenvoltura de que sua campanha precisava.

A obrigação era dele

Lula já chegou atrás a um segundo turno em 1989, contra Fernando Collor. Agora, disputa a reeleição, com a máquina federal nas mãos, depois de terminar a primeira rodada atrás de Flávio. Precisava produzir um acontecimento capaz de movimentar a semana decisiva. Necessitava de uma reação contundente. Não conseguiu. Flávio precisava sustentar sua posição e demonstrar condições de enfrentar o presidente. Saiu mais confortável dessa tarefa.

O risco da abstenção

O indeciso que não encontra motivo para escolher pode terminar na abstenção, no branco ou no nulo. Não é destino certo, mas representa um risco para as duas campanhas. Para quem corre atrás, deixar de conquistar esse eleitor é desperdiçar uma oportunidade. Lula precisava ampliar. Falar apenas para os seus é insuficiente.

Melhor no confronto

Ganhar um debate não significa ganhar a eleição. Mas Flávio saiu-se melhor na forma e encontrou passagens consistentes no conteúdo. Não cabe decretar mudança eleitoral antes das pesquisas posteriores. Lula, porém, não impôs a superioridade que seu tempo de estrada sinalizava. A pressão continua sobre o presidente. A estreia de Flávio não ofereceu ao PT o tropeço de que tanto precisava.

A última oportunidade

Agora vêm os cortes, as redes sociais e o aproveitamento eleitoral de cada passagem. Na sexta-feira, 23, a Globo receberá o último confronto antes da votação de domingo. Lula terá outra oportunidade. Mas chegará com uma obrigação ainda maior: fazer o que não fez na Band. A experiência estava do lado dele. A desenvoltura, desta vez, esteve do outro.

Cláudio Prisco Paraíso

Blog do Prisco

Começou no jornalismo em 1980, no jornal O Estado. Atuou em diversos veículos de comunicação: repórter no Jornal de Santa Catarina, colunista no Jornal A Notícia e comentarista na RBS TV, TV RECORD, Itapema FM, CBN Diário e Radio Eldorado. Comenta diariamente em algumas rádios e publica sua coluna do dia em alguns jornais do Estado. Estreou em março de 2015, nas redes sociais e está no ar com o Blog do Prisco.

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