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Domingo decide o presidente e começa a encerrar a era Lula-Bolsonaro

Por Cláudio Prisco Paraíso
23/10/2026 - 16h28

Estamos caminhando para a grande definição da disputa presidencial. Pesquisas para todos os gostos: algumas apontam vantagem de Flávio Bolsonaro; outras mostram empate ou diferenças mínimas.

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Independentemente dos prognósticos, há uma questão que ultrapassa domingo: como ficará a política brasileira depois das urnas? O resultado decidirá o governo. Mas também começará a redesenhar a disputa de 2030.

A esquerda envergonhada

Entre 1994 e 2014, o país viveu duas décadas de enfrentamento presidencial entre PT e PSDB. De um lado, a esquerda petista. Do outro, a social-democracia tucana, a esquerda envergonhada, incapaz de representar o conservadorismo que existia na sociedade. Havia eleitores de direita. Faltava uma candidatura nacional capaz de lhes dar identidade e protagonismo.

A mudança de eixo

Em 2018, Jair Bolsonaro rompeu aquela estrutura e derrotou Fernando Haddad, o poste escalado por Lula, então preso e impedido de concorrer. Em 2022, depois da anulação de suas condenações, Lula voltou e venceu Bolsonaro numa eleição apertada. Agora, com Jair fora da disputa, o primogênito representa esse campo. Mudou o candidato. Permaneceu o enfrentamento entre lulismo e bolsonarismo.

Subestimaram Flávio

Lula, o PT e o governo subestimaram o adversário. Imaginaram uma vitória na maciota. Acreditaram que o sobrenome Bolsonaro não bastaria para sustentar uma candidatura competitiva. O resultado foi outro: Flávio terminou o primeiro turno à frente. Lula ficou com a obrigação de buscar a reação. Desde 1989, nenhum segundo colocado na primeira rodada venceu o segundo turno presidencial. A escrita existe para ser derrubada. Mas o desafio está colocado para o petista.

O compromisso cobra 

Se Flávio vencer, terá de responder pelo compromisso de não disputar a reeleição. A PEC apresentada no Senado depende de aprovação. Promessa não altera a Constituição. Mas a palavra empenhada também cobra seu preço. Não seria aceitável defender o fim da reeleição na campanha e descobrir suas vantagens depois de sentar na cadeira. Cumprido o compromisso, 2030 terá uma disputa aberta dentro da própria direita.

Tarcísio no horizonte

Nesse cenário, Tarcísio de Freitas surge como nome natural. Completaria o segundo mandato em São Paulo, à frente do maior estado e do maior colégio eleitoral brasileiro. Tem experiência administrativa, projeção e condições de dialogar além do eleitorado bolsonarista. Mais adiante, Nikolas Ferreira também aparece como liderança de uma nova geração. A direita já não depende exclusivamente de um sobrenome. Há nomes disputando espaço e construindo musculatura.

PT sem o dono

Uma derrota de Lula obrigaria o PT a fazer o que adiou durante décadas: preparar a sucessão de seu comandante. O caudilhismo tem esse defeito. Concentra o poder, exige fidelidade e trata qualquer autonomia como ameaça. Haddad foi utilizado como alternativa, mas acumulou derrotas e não se consolidou como herdeiro eleitoral. O partido teria quatro anos para buscar uma liderança capaz de caminhar sem a mão de Lula.

Alternativas nordestinas 

Rui Costa e Camilo Santana entram naturalmente nessa discussão. Ambos governaram estados importantes do Nordeste, passaram pelo ministério de Lula e construíram bases próprias. São nomes com experiência e estrutura partidária. Isso não significa que tenham projeção suficiente para substituir o líder petista nacionalmente. Uma coisa é administrar um território favorável. Outra é disputar o país inteiro. O PT precisará descobrir se produziu sucessores ou apenas auxiliares.

Se Lula vencer

Uma vitória de Lula também provocaria um rearranjo profundo na direita. Flávio sairia derrotado, e a família Bolsonaro teria de enfrentar a cobrança pelo resultado. Isso não extinguiria automaticamente o bolsonarismo. Movimentos políticos não desaparecem por decreto. Mas enfraqueceria a pretensão de reservar outra candidatura presidencial ao mesmo núcleo familiar. Tarcísio ganharia espaço. E a discussão de 2030 dificilmente deixaria de passar por ele.

Chega do personalismo

Direita e esquerda continuarão existindo. Conservadores e progressistas continuarão disputando projetos. Isso faz parte da democracia. O que precisa ser superado é a submissão do debate nacional a duas figuras e às suas guerras particulares. Domingo pode começar a encerrar esse ciclo. Não necessariamente a polarização ideológica, mas a dependência de Lula e Bolsonaro como donos exclusivos dos dois campos. O Brasil precisa discutir seu futuro. Já passou da hora de deixar de viver aprisionado ao destino de duas famílias políticas.

Cláudio Prisco Paraíso

Blog do Prisco

Começou no jornalismo em 1980, no jornal O Estado. Atuou em diversos veículos de comunicação: repórter no Jornal de Santa Catarina, colunista no Jornal A Notícia e comentarista na RBS TV, TV RECORD, Itapema FM, CBN Diário e Radio Eldorado. Comenta diariamente em algumas rádios e publica sua coluna do dia em alguns jornais do Estado. Estreou em março de 2015, nas redes sociais e está no ar com o Blog do Prisco.

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