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Ausências emblemáticas

Por Cláudio Prisco Paraíso
06/06/2026 - 09h24

As comemorações pelos 60 anos do MDB catarinense, realizadas na Assembleia Legislativa, produziram um efeito político curioso: tão comentadas quanto as presenças foram justamente as ausências. Dos três principais pré-candidatos ao governo do Estado, nenhum compareceu ao evento. Mas por razões completamente diferentes.

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João Rodrigues estava em roteiro pelo interior catarinense. A ausência foi administrativa, logística e previamente compreendida pelos emedebistas que hoje gravitam em torno do projeto liderado pelo ex-prefeito de Chapecó.

Já no caso de Jorginho Mello, a situação é política. Claramente política.

O governador foi aconselhado a não comparecer. A avaliação no entorno do Centro Administrativo era simples: o ambiente não seria amistoso. E dificilmente seria mesmo.

Expectativa frustrada

Afinal, o MDB permaneceu durante mais de três anos dentro do governo estadual sob a expectativa concreta de indicar o vice na chapa da reeleição. Carlos Chiodini era tratado como nome natural para ocupar esse espaço. Até que Jorginho promoveu um cavalo de pau estratégico e foi buscar Adriano Silva, do Novo. O MDB ficou pelo caminho.

Divisão

Hoje, o cenário interno do MDB catarinense é relativamente claro. Algo próximo de um terço das lideranças mais influentes segue alinhado ao projeto de recondução de Jorginho Mello. São figuras que permaneceram no governo, mantêm espaços administrativos e apostam na força da máquina estadual e da onda conservadora.

Os outros dois terços caminham com João Rodrigues.

Geleia geral

Mas atenção: hoje, dois terços do MDB estão com o ex-prefeito de Chapecó. Amanhã, muita coisa pode mudar. Porque política é fotografia do momento, não escritura definitiva. Ainda mais em um cenário de absoluta volatilidade.

E é exatamente aí que entra um elemento que pouca gente está observando com a devida profundidade.

Atração canhota

A terceira ausência relevante no evento foi a de Gelson Merisio. E ela também carrega simbolismo.

Merisio, que durante décadas orbitou o campo da centro-direita — passando por PFL, Democratas e PSD —, hoje é o candidato da esquerda catarinense ao governo do Estado, abrigado no PSB e respaldado integralmente pelo PT e pelos demais partidos do campo progressista.

Pragmatismo

O ex-deputado passou por uma transformação ideológica? Nem tanto. Estamos falando muito mais de uma reacomodação política e estratégica. O fato concreto é que Merisio tornou-se o instrumento eleitoral da esquerda na tentativa de ampliar o desempenho de Lula em Santa Catarina em 2026, depois dos cerca de 30% obtidos no segundo turno de 2022 diante dos quase 70% de Jair Bolsonaro.

Parece pouco? Não necessariamente, se olharmos para o contexto dos 27 estados da Federação.

Incógnita

O grande ponto é que faltam poucos meses para a eleição. Quatro, para sermos mais exatos. E campanha eleitoral muda cenários com velocidade impressionante. Especialmente quando há fragilidades evidentes numa pré-candidatura.

João Rodrigues está há mais de dois anos em movimento estadual. Lançou-se antes mesmo da reeleição em Chapecó. Percorreu o estado, intensificou agendas, consolidou alianças e tornou-se, sem dúvida, o principal antagonista de Jorginho Mello.

Patinando

Mas ainda não conseguiu ganhar tração definitiva. Segue patinando, estagnado. E isso começa a produzir inquietação silenciosa dentro do MDB. Porque aquele um terço alinhado a Jorginho dificilmente abandonará o governador. Esse grupo considera praticamente inevitável sua presença em um eventual segundo turno.

A dúvida está justamente nos outros dois terços.

Migração

Se João Rodrigues continuar patinando nas pesquisas e não demonstrar competitividade efetiva até a reta final da campanha oficial, parte significativa dos emedebistas pode buscar outro caminho.

E esse caminho pode levar exatamente até Gelson Merisio.

Canhotos envergonhados

Sim, porque existe dentro do MDB catarinense uma ala historicamente mais simpática ao PT e ao espectro da esquerda. Isso nunca deixou de existir desde os tempos dos chamados autênticos do velho MDB.

Em muitas regiões do Estado, sobretudo em setores municipais e intermediários da legenda, essa identificação permanece viva — ainda que silenciosa.

Errou

Por isso, uma eventual estagnação de João Rodrigues pode não apenas enfraquecer o PSD, mas fortalecer diretamente a candidatura de Gelson Merisio. E talvez esse seja hoje o movimento mais subestimado do tabuleiro político catarinense. Portanto, o candidato da esquerda errou ao não prestigiar o evento do MDB.

Cláudio Prisco Paraíso

Blog do Prisco

Começou no jornalismo em 1980, no jornal O Estado. Atuou em diversos veículos de comunicação: repórter no Jornal de Santa Catarina, colunista no Jornal A Notícia e comentarista na RBS TV, TV RECORD, Itapema FM, CBN Diário e Radio Eldorado. Comenta diariamente em algumas rádios e publica sua coluna do dia em alguns jornais do Estado. Estreou em março de 2015, nas redes sociais e está no ar com o Blog do Prisco.

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