Fotos: Joyce Santos

Lindomar Cardoso Tournier completa 100 anos de muita sabedoria e adaptação com “os novos tempos”

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Uma personalidade que completa 100 anos nesta sexta-feira, 27, aponta como principal sentido da vida o que os mais modernos coachs aplicam atualmente, o propósito. Para Lindomar Cardoso Tournier, todas as pessoas deveriam priorizar sua vocação.

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Foi essa atitude que transformou a vida deste simpático e sábio senhor em um livro aberto, como considera. Autodidata, autor de 20 livros – dez deles publicados e pintor – ele mantém a personalidade exemplar com vigor que deixa muito jovem para trás. Ele não se cansa de se atualizar, e quanto surge alguma palavra diferente no noticiário, Lindomar recorre a um antigo amigo, o dicionário.

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“A minha cabeça está muito boa e eu gosto de me manter informado. Quando fico em dúvida eu pesquiso e descubro as novidades. Esses dias eu pesquisei sobre a palavra híbrido, que tanto começaram a usar e então compreendi o sentido em que ela é utilizada atualmente”, revela.

Bons hábitos, como uma alimentação regrada e sem excessos – nem vícios – são algumas receitas que podem explicar sua vitalidade, em quase um centenário de vida. De família humilde, Lindomar teve pouca oportunidade para estudar, pois precisava trabalhar. Mas isso não impediu que ele aprendesse sozinho.

Uma informação foi decisiva para que direcionasse sua dedicação para o trabalho com um propósito maior. Aos dez anos, ele morava em Barro Branco, uma localidade de Lauro Müller, quando soube que uma tia tinha uma farmácia.

Foi quando prontamente, pediu aos pais para ir trabalhar na empresa, porém isso implicava que ele se mudasse para Araranguá, onde morava o tio. E ele foi. Quando chegou ficou um pouco frustrado – ao invés de trabalhar na farmácia – ele teve que desempenhar outros papéis, como o de cuidador de criança, carregar baldes de água para tirar a sede de bois, além de ter de comprar comidas.

Pacientemente o jovem Lindomar cumpriu as ordens recebidas enquanto se alimentava das sobras. Até o dia em que o tio precisou da ajuda dele na farmácia.

“Valeu a pena esperar. Lá eu comecei a prestar bastante atenção no trabalho do meu tio e, em pouco tempo, absorvi bastante conhecimento. E por isso, fui chamado para voltar a Lauro Müller para trabalhar com um médico mineiro, José Lerner Rodrigues, mineiro, entre 1932 e 1936. Ele veio do Rio de Janeiro para cuidar principalmente dos empregados de uma grande empresa. Aprendi muito com ele. E isso oportunizou o convite do meu tio para que eu retornasse a Araranguá. Ele gostaria de ingressar na carreira política e precisava se dedicar a tais atividades para isso. Foi mais uma grande oportunidade”, relembra.

Escapou da Guerra

Em 1940, o mundo vivia um período tumultuado por conta da Guerra Mundial. “Mais uma vez tive sorte pois não fui chamado. E assim pude tirar minha carta profissional de prático, que era como chamavam os farmacêuticos”, explica.

Quatro anos mais tarde Lindomar conheceu então sua companheira de vida em Araranguá, a senhora Francisca. Em menos de um ano de namoro ele já havia pedido ela em casamento em 1944. Logo em seguida foi novamente chamado para trabalhar com o doutor Rodrigues e não pensou duas vezes para aceitar o convite.

E as oportunidades eram cada vez melhores, justamente por que Lindomar foi se aperfeiçoando. Sendo assim estava pronto para assumir uma farmácia em Guatá, localidade pertencente à Lauro Müller. Foi lá que montou sua primeira farmácia e mesmo assim seguia ajudando o Doutor Rodrigues, seu grande mestre.

“Eu atendia muita gente. Às vezes o doutor não podia estar presente, então eu fazia os primeiros procedimentos. No Guatá, eu também tive cinco filhos, mas um deles faleceu de uma grave doença”, comenta com pesar, ao comparar a sua vida com o tempo que tem dias custosos – dias de tormentas, chuvas de pedras, raios e dias felizes, que são os dias calmos”, poderá.

Chegada em Tubarão

Mas os desafios também serviam de impulso para o senhor Lindomar. E ele decidiu pesquisar quais outras cidades seriam interessantes na região para ele morar com sua família.

“Estava muito bem comercialmente no Guatá, minha esposa estava concluindo os estudos em Braço do Norte. Começamos a viajar para conhecer outros municípios. Fomos para Porto Alegre, Florianópolis, Criciúma e escolhemos Tubarão”, descreve.

Assim escolheu o município, onde reside até os dias atuais. Lindomar relembra ter sido muito bem recebido e, em seguida, teve outros dois filhos.

Em pouco tempo foi convidado para ser sócio de vários clubes, como o de futebol, o E.C. Ferroviário, e também os recreativos, Sete de Julho e 29 de junho. Ele também foi um dos fundadores da Câmara de Dirigentes Logistas (CDL) e da Associação de Farmácias (Profarma).

“E acredito que sou o único ainda vivo que fez parte da comissão para a construção da Catedral. Eram 14 integrantes”, salienta.

O comerciante
Existiam outras farmácias com nome forte na cidade, mesmo assim isso não impediu que em pouco tempo Lindomar se destacasse. Ele credita que o motivo foi a atenção com o público, dedicação total sem distinção de condição social.

“Ia aos domingos nos bairros, como por exemplo, na Madre, com os filhos dentro do carro. Um dia encontrei um cidadão, acho que era o Pedro, o boi passando por dentro do rio, meus filhos ficaram impressionados. E assim conversamos um pouco nesse encontro. Na outra semana ele já veio na farmácia. E era cliente de outros. Eu tinha um modo de atender todo especial, com interesse, sem distinguir negro, branco, gente do interior. As pessoas do interior quando me viam vinham me abraçar. Quando não tinham condições de pagar eu dava o remédio. Foi um tempo muito bom, de muito felicidade”, avalia.

Testemunha do silêncio

Lindomar viveu momentos épicos também fora daqui. Foi assistir à Copa do Mundo de 1950 no Rio de Janeiro. “Foi uma experiência sensacional, uma festa magnífica com o Maracanã lotado, com público de 200 mil pessoas no primeiro jogo. No dia da derrota o cenário mudou radicalmente. As pessoas choravam copiosamente, inclusive com muitas mulheres na torcida. Jamais esqueci aqueles momentos”, comenta.

Tecnologia

E para quem pensa que ter de usar celular e internet seria um empecilho para seu Lindomar se engana. Ativo em sua rotina, ele que ainda também dirige seu carro, é totalmente familiarizado com a tecnologia. “Isso não me assusta, é apenas seguir vivendo”, almeja.

*Matéria publicada na edição impressa de março/abril de 2022 – Texto: Joyce Santos

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Fabiano Bordignon

Fabiano Bordignon

Jornalista e editor da edição impressa da Revista Única e do portal www.lerunica.com.br.

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