Foto: Revista Única

Histórias de motel: Única entrevista camareira do Texas

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“O Texas salva casamentos”. A frase de Cláudio Alves Nunes, proprietário de um dos motéis mais tradicionais da região de Tubarão, é a resposta do empresário para uma pergunta sobre peso na consciência por gerenciar uma empresa do ramo. Se você não é amigo ou familiar do empreendedor, fatalmente nunca saberá o rosto por trás da recepção do local. Na manhã que a reportagem visitou o lugar, que fica em uma das marginais da BR 101, no Bairro Revoredo, sentido Norte da rodovia federal, Cláudio não aceitou ser fotografado. Tampouco uma das funcionárias mais antigas da casa.

Fabrícia Regina Ramos trabalha no Texas Motel há 18 anos. Já foi camareira, responsável pela lavanderia e hoje divide com Cláudio a responsabilidade de atender os clientes. Ela também não aceitou ser fotografada. “As pessoas podem nos conhecer na rua. Nosso lema é sigilo”, respondem. A rotina é puxada, afinal, você já viu um Motel fechado? O Texas funciona 24 horas por dia, sete dias por semana. Por trás de um movimento constante de clientes, muita organização, segurança, respeito e, o principal, bastante sigilo e privacidade. “Nem a gente sabe quem frequenta o local”, garante Cláudio.

Para Fabrícia, história é o que não falta. A “parente de coração” do dono do estabelecimento já viu de tudo nas quase duas décadas que trabalha na empresa. “A gente acaba se acostumando”, responde. “É um trabalho como qualquer outro, minha mãe já trabalhou aqui”, revela. A funcionária conhece todos os 20 quartos do Texas. Todos têm garagem própria. Nas acomodações, cama confortável, frigobar cheio, televisão com opções de canais e banheiro limpo. Higiene, aliás, é a prioridade. “Nossas roupas de cama, por exemplo, passam por um rigoroso processo de limpeza, com produtos que são utilizados também nos hospitais”, salienta Cláudio Nunes, que também administra um Motel em Laguna.

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Atualmente o Texas possui oito funcionários, que se revezam para que o atendimento seja efetuado da melhor maneira. O contato com o cliente, esclarece Fabrícia, é o mínimo possível. “A gente fala com eles na entrada, vez ou outra durante a estadia e na hora de ir embora. Só entramos no quarto depois que saem”. E é nas acomodações, claro, que estão as melhores histórias. “São muitas. Eu costumo dizer que você só conhece a pessoa depois de deixar ela entre quatro paredes”, alerta Cláudio. “Principalmente na questão da higiene”, brinca.

Fabrícia conta que as pessoas que frequentam o Texas Motel permanecem, em média, 40 minutos no local. “Normalmente, depois que eles saem, a gente recolhe as roupas de cama e começa a limpeza. É coisa rápida”, conta. Estar de ouvidos atentos é outro requisito para o trabalho. “A gente ouve muita coisa, como você pode imaginar. Mas é algo que todo mundo faz”, se diverte. “A gente acaba não aceitando grupos de muitas pessoas, senão o barulho atrapalha”, relata. “Mas o limite também não é só de dois clientes”, brinca.

O processo que, em média, dura menos de uma hora, inicia na chegada do cliente no local. Conforme Cláudio Nunes, não é só de carro que as pessoas frequentam o Texas. “Tem gente que vem de moto, a pé e até de bicicleta. Todos são atendidos normalmente e podem ir com o meio de locomoção até a garagem dos quartos”, explica. A reportagem flagrou a saída de um cliente do local. O pagamento foi feito através de uma abertura entre a recepção e a rua. Um homem pagou o valor, esperou o portão ser aberto (há câmeras de vigilância na rua) e saiu. “Às vezes a gente pergunta se a pessoa quer esperar um pouco antes de sair, pois na estrada estão passando pessoas ou alguma movimentação lenta. Tudo pelo sigilo”, garante Cláudio.

Avisou onde estava por engano

Há muitas histórias curiosas dentre as dezenas guardadas na memória de Fabrícia. Uma delas aconteceu em determinada noite. “Um representante comercial apareceu e explicou que gostaria de um pernoite. Dormiria e seguiria viagem no dia seguinte. Estava sozinho”, conta. Momentos depois, o homem apareceu na recepção do Texas, caminhando. “Ele perguntou se podia passar um fax à esposa, que morava em Curitiba. Queria dizer onde estava”, relembra. A funcionária atendeu ao pedido e o celular do homem tocou segundos depois. Era a companheira. “Ele me olhou assustado e perguntou se o lugar era um Motel. Pensou que fosse um Hotel. Acabou voltando para o quarto, arrumou suas coisas, pagou e foi embora”, conclui Fabrícia.

Desafiou a mulher

Muitos clientes já mentiram para os funcionários do Texas. “Teve um que entrou sozinho, mas disse que uma mulher chegaria momentos depois”, relembra Fabrícia. Ninguém apareceu, naturalmente. “Passou uma tarde inteira e a acompanhante não veio. Fui no quarto, bati na porta e ele abriu. No fim, contou que só sairia do local se a esposa fosse buscar”, se diverte a funcionária. A camareira chegou a ligar para a companheira, após receber o número de telefone do cliente. “Ela acabou aparecendo, pagou a estadia e levou o homem embora”, relembra. Ninguém entendeu o motivo.

Outra história comum nos anos de existência do Texas Motel é sobre os homens que procuram o local apenas para passar a noite. “Muitos aparecem porque brigaram com a mulher. Ficam um, dois dias. Até uma semana. Mas sozinhos”, esclarece a colaboradora. Mesmo assim, explica Fabrícia, os comentários existiam. “Um ou outro via a pessoa entrando e saindo do Motel e as conversas aconteciam”, conclui.

Futebol, Flamengo e Texas

A tradicional quarta-feira de futebol simboliza um aumento de movimento no Texas Motel. “Muita gente diz que vai assistir ao jogo mas acaba vindo pra cá”, conta Cláudio. A quantidade de pessoas cresce em partidas decisivas – exceto uma vez. “Em 2014 a final da Copa do Brasil foi disputada entre Cruzeiro x Atlético Mineiro. O movimento foi muito fraco”, relembra Cláudio. Questionado sobre equipes que geram resultado ao negócio, a resposta é direta. “O Flamengo”, responde. “Quando o Flamengo joga o faturamento aumenta”, comemora, aos risos.

*Matéria publicada em edição impressa da revista Única.

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Fabiano Bordignon

Fabiano Bordignon

Jornalista e editor da edição impressa da Revista Única e do portal www.lerunica.com.br

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